O católico e a Ditadura do Relativismo

O professor Felipe Aquino escreveu ontem um excelente texto no seu blog, chamado “o cristão e o respeito humano”, que é muitíssimo atual e vale muito a pena ser lido. Aproveito a oportunidade para tecer mais alguns comentários sobre o assunto.

No início do ano, o Cardeal Tarcisio Bertone – secretário de Estado do Vaticano – pronunciou uma conferência na Universidade de Havana, em Cuba. Entre outras coisas, o Eminentíssimo Cardeal mostra como uma errônea consideração da razão humana – predominante no mundo moderno, é importante salientar – termina por conduzir àquilo que Sua Santidade o Papa Bento XVI, quando ainda Cardeal Joseph Ratzinger, chamou de “Ditadura do Relativismo”. Os passos dessa degeneração são relativamente simples: a razão humana, passando a ser considerada sob uma ótica exclusivamente empírica (nas palavras do Card. Bertone, a “redução da razão a uma ciência experimental”), conduz a um conseqüente abandono da metafísica. Deste modo, tudo aquilo que não é passível de investigação científica (p. ex., Deus) é tratado como se fosse inexistente, ou indiferente, ou estranho à racionalidade humana, de modo que não pode ser levado em consideração a não ser no foro íntimo. Desta maneira, não admitindo qualquer valor absoluto, chega-se à conclusão irracional e intrinsecamente contraditória de que a única verdade absoluta é… que não existem verdades absolutas! Nas palavras do Eminentíssimo Cardeal:

A lógica deste dinamismo leva àquilo que Bento XVI denominou “a ditadura do relativismo”. Ou seja, diante da impossibilidade de estabelecer normas comuns, com a validade universal para todos, o único critério que permanece para determinar o que é bom ou mau é o uso da força, quer a dos votos quer a da propaganda ou das armas e da coerção. “Está-se a constituir uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida somente o próprio “eu” e os seus desejos” (J. Ratzinger, Homilia na Missa “pro eligendo Romano Pontifice”, 18 de Abril de 2005). A partir de tais pressupostos, seria impossível construir ou manter a vida social.

Eis, portanto, o mundo em que vivemos: a “mutilação” da Razão Humana, que conduz à impossibilidade de se afirmar valores absolutos que tenham validade universal e supra-cultural, faz com que seja impossível a manutenção de uma sociedade minimamente civilizada. Afinal, se não existe uma Moral pela qual todos os povos e culturas precisam se pautar, então o que impera é a lei do mais forte, e vai ser “certo” ou “errado” aquilo que as pessoas “decidirem” que é certo ou errado. Se decidirem que é certo equiparar a dupla de homossexuais à família, então isso passa a ser certo. Se decidirem que é certo a mãe matar o próprio filho no ventre, então isso passa a ser certo. Se decidirem que é certo matar judeus, então isso passa a ser certo. Em uma palavra: se não existe uma Lei, estamos condenados a viver em uma terra sem lei, onde qualquer coisa pode passar a ser certa ou errada dependendo da vontade de quem for mais forte. E, digam o que disserem, isto não é liberdade, não é progresso, não é evolução, não é civilização. É, ao invés disso, a mais cruel barbárie.

Sua Santidade o Papa Bento XVI, quando esteve na Espanha dois anos atrás, escreveu o seguinte aos bispos da Conferência Episcopal Espanhola: “Segui, pois, proclamando sem desânimo que prescindir de Deus, actuar como se não existisse ou relegar a fé ao âmbito meramente privado, mina a verdade do homem e hipoteca o futuro da cultura e da sociedade”. E, no mesmo sentido, disse o Cardeal Bertone em Havana: “Portanto, é necessário inverter o axioma do relativismo ético e postular vigorosamente a existência de uma ordem de verdade que transcende os condicionamentos pessoais, culturais e históricos, e que tem uma validade permanente”. Nós, católicos, estamos com o Papa. A Fé não é uma questão de foro íntimo. Deus não é um elemento estranho ao debate público. Existem valores que são universais e que precisam, como tais, ser defendidos. E nós temos a obrigação de travar este combate, com coragem e destemor, a fim de que Cristo reine.

A Igreja Católica nunca apresentou o Evangelho como sendo apenas um conjunto de crenças irracionais que não almejavam senão o foro íntimo. Jamais. A Fé Católica e Apostólica é a Fé Verdadeira – a Única Fé Verdadeira – e, portanto, pode e deve ser apresentada a todos os homens, no “terreno comum” a todos eles, na razão natural considerada em sua plenitude. Porque a Fé é também absoluta, e a Verdade é verdadeira para todos os homens; a pregação do Evangelho não faz nenhum sentido dentro de um mundo relativista e subjetivista, onde a Fé é enxergada exclusivamente como um assunto de foro íntimo.

Na relação entre os que crêem e o que não crêem, portanto, é mister haver uma via de mão dupla: ao mesmo tempo em que a Fé evidentemente não pode ser imposta à sociedade, a anti-Fé tampouco o pode! Esta última não se pode apresentar como a única atitude racionalmente válida para a vida em sociedade, pois ela é precisamente o contrário: é uma atitude irracional que torna impossível a vida em sociedade. Há verdades universais que não são exclusivas da Fé Católica, sendo acessíveis à razão natural; de novo citando o Secretário de Estado do Vaticano, “a lei natural manifesta-se como uma espécie de “gramática” transcendente que permite o diálogo entre os povos, ou seja, um conjunto de regras de realização individual e de relacionamento entre as pessoas na justiça e na solidariedade, que está inscrita nas consciências nas quais se reflecte o sábio projecto de Deus”. Importa que os católicos tragam Deus à vida pública, desafiando a Ditadura do Relativismo, proclamando em alta voz a existência da Verdade, Eterna e Imutável, longe da qual só existe obscurantismo e barbárie. Já chega de covardia. A defesa da Fé é essencial para a defesa da humanidade. Defendamos com destemor as leis e os direitos de Deus. Não recuemos diante dos gritos, das ameaças e dos xiliques dos laicínicos de todos os naipes. Que São Miguel Arcanjo nos defenda no combate.

Miscelânea de assuntos

– O Papa Bento XVI está preparando uma encíclica social; e a expectativa é que ela saia até o final deste ano. Excelente notícia, posto que será – sem dúvida – mais um duro golpe na Teologia da Libertação, mais uma reafirmação do Magistério da Igreja sobre assuntos esquecidos dos nossos dias. No entanto discordo, data vênia, do otimismo do card. Martino sobre a invasão muçulmana que sofre a Europa; precisamos não de mesquitas, e sim de mais padres zakarias

– A PEPSI doou meio milhão de dólares para uma fundação que defende direitos gays! Não nos iludamos: o gayzismo é um movimento tremendamente bem organizado e milionariamente financiado. Vale salientar – mais uma vez – que “direitos gays” é uma expressão intrinsecamente absurda, posto que o vício não pode produzir “direitos” adicionais. Não há nenhum motivo para que a homossexualidade seja tratada de maneira diferenciada pelas leis positivas; se – como foi noticiado – a tal organização luta para que “empresas concedam aos funcionários homossexuais os mesmos benefícios concedidos aos héteros”, então ela não está lutando por “direitos gays”, e sim por direitos trabalhistas que valem para todos. Faz muita diferença.

– “Mas o ministro de Deus / possui o santo dever / de estar di lado dos fracos / sua causa a defender, / não é só salvar a alma / também precisa comer” (Patativa do Assaré, “O padre Henrique e o Dragão da Maldade”, in Ispinho e Fulô). Não sei quem foi padre Henrique; a julgar pelo poema, contudo, parece ter sido um dos expoentes da Teologia da Libertação em Recife à época da Ditadura Militar. Em uma carta inédita de D. Hélder sobre o referido padre que encontrei recentemente, diz-se ter sido o padre “trucidado em 1969 por integrantes da ditadura militar brasileira”. Tinha 28 anos de idade. Maldito comunismo (sim, a culpa é dos comunistas), que ceifou a vida de um sacerdote do Deus Altíssimo ainda na juventude, depois de – provavelmente – ter-lhe contaminado a alma! Kyrie, eleison.

– A Santa Sé já disse que a Igreja não possui faculdade de ordenar mulheres. Recentemente, estabeleceu até uma pena de excomunhão latae sententiae para quem tentasse uma “ordenação” feminina. No entanto, um bando de malucas – parece que não se cansam! – esteve esta semana no Vaticano em defesa justamente desta sandice. Acho que o Papa vai precisar desenhar…

Ainda a controvérsia sobre Pio XII

Duas ligeiras coisas sobre Pio XII. Em primeiro lugar, o jornal alemão Der Spiegel publicou uma reportagem bastante tosca – que ganhou eco na mídia nacional (só para assinantes, abaixo reproduzida na íntegra tal como recebi por email) – na qual se questiona o processo de canonização do Servo de Deus. Chegando ao cúmulo de citar John Cornwell, evidente está que a matéria não pode exigir seriedade. Fica só o registro do baixo nível a que chegam os detratores de Pio XII, que por si sós já lançam descrédito sobre a tese que defendem.

Em segundo lugar, comentei aqui sobre um editorial de L’Osservatore Romano publicado logo após as declarações do pérfido judeu no Sínodo dos Bispos. Um amigo teve a gentileza de conseguir-me o texto original, que apresento traduzido, não por ser – como pensei a princípio – uma resposta ao rabino de Haifa Cohen, mas por ser a parte positiva daquilo que o judeu disse [ou devia ter dito] sobre o problema da interpretação das Escrituras Sagradas pelos judeus e pela Igreja. Em particular, o texto tem o mérito de separar muito bem as coisas, ao delimitar – mesmo reconhecendo a existência de um patrimônio comum entre judeus e cristãos – o que é interpretação judaica e o que é interpretação cristã, deixando claro que a primeira não é aceitável para os cristãos. Só atento para o fato de que o traduttore, traditore é particularmente válido quando o traditore em questão sou eu, de modo que quaisquer correções no texto são muitíssimo bem vindas.

Primeiro, pois, o texto de L’Osservatore, e depois o do Der Spiegel.

* * *

Respeito e amor pelo povo judeu

Existe um texto, entre aqueles lidos no primeiro dia do Sínodo [dos bispos], que deixará a [sua] marca. Trata-se do relatório do Cardeal Albert Vanhoye sobre um documento – dentre os mais importantes das últimas décadas – publicado no outono de 2001 pela Pontifícia Comissão Bíblica. “O povo judeu e as suas Escrituras Sagradas na Bíblia cristã” é o título que indica o tema do documento que, não obstante a sua importância, obteve uma escassa circulação na pregação e na catequese católica. Nas três edições [impressas] pela Livraria Vaticana, a tiragem do texto italiano foi de apenas quinze mil cópias. O fato de que um Sínodo se abra explicando um documento surgido, sete anos atrás, por um autorizado estudioso que participou de sua preparação, indica a estreita correlação entre o tema sinodal e o conteúdo do texto; mas ao mesmo tempo propõe a toda a Igreja um ponto de vista [a partir] do qual interpretar [leggere] o diálogo entre judeus e cristãos: aquele da Bíblia.

O tema da Palavra de Deus é muito caro a Bento XVI, antes é uma chave de leitura para compreender melhor o [seu] pontificado. Os três principais documentos saídos do Concílio [Vaticano II] e após [ele] que se referem à Palavra de Deus – a Constituição Conciliar Dei Verbum (1965), A Interpretação da Bíblia na Igreja (1993), O Povo Judeu e as suas Escrituras Sagradas na Bíblia Cristã (2001) – tiveram um apoio não [apenas] secundário do teólogo e depois cardeal Ratzinger. Os dois últimos foram preparados sob a sua responsabilidade de prefeito da [Congregação para a] Doutrina da Fé e se abrem com um prefácio seu. Apesar disto, enquanto o cardeal Vanhoye lia o seu relatório, Bento XVI sublinhava o texto que escutava. Um pequeno gesto que assinala a importância, para os padres sinodais, de participarem de um tema que o mesmo Ratzinger, quando cardeal, havia definido como «questão central da Fé cristã». Vanhoye contou que levou cinco anos para escrever o documento, e que se trata de um trabalho «realizado com rigor científico e com espírito de respeito e amor pelo povo judeu».

«Sem as Escrituras Sagradas do povo judeu – acrescentou com uma afirmação vigorosa – a Bíblia Cristã não estaria completa. Isto é perfeitamente verdadeiro, mas insuficiente. O Antigo não é simplesmente uma peça entre as outras da Bíblia Cristã. É a base, a parte fundamental. Se o Novo Testamento fosse estabelecido sobre alguma outra base, não teria valor verdadeiro. Sem a sua conformidade com as Sagradas Escrituras do povo judeu, não teria podido apresentar-se como a realização do plano de Deus».

Daqui resulta que «os cristãos podem e devem aceitar que a leitura judaica da Bíblia é uma leitura possível». Mas esta leitura «possível para os judeus que não crêem em Cristo, não é possível para os cristãos, na medida em que implica na aceitação de todos os pressupostos do judaísmo, em particular daqueles que excluem a fé em Jesus como Messias e Filho de Deus». Todavia, as censuras e os textos polêmicos contidos no Novo Testamento em confronto com os [textos] dos judeus, provocados no início do Cristianismo pela oposição dos judeus ao apostolado cristão, «não correspondem jamais a uma atitude de ódio» e «não devem servir de base ao anti-judaísmo». Uma tal utilização com este objetivo é «contrária à orientação de todo o Novo Testamento». Uma atitude de respeito, de estima e de amor pelo povo judeu «é a única atitude verdadeiramente cristã». Não obstante as diferenças, «o diálogo permanece possível, pois judeus e cristãos possuem um rico patrimônio comum que os une». É na direção de um melhor conhecimento recíproco que a Igreja é, assim, convidada a progredir. Trata-se de uma posição que não prescinde do contexto do nosso presente, como o mesmo cardeal Ratzinger escrevia no prefácio ao texto da Comissão Bíblica: o drama do Shoah pôs toda a questão sob uma outra luz.

Com o relatório de Vanhoye, o sínodo deu o sinal de uma posição [di uno stile] de escuta e de abertura, mas [no entanto] também de uma busca racional [ragionata] às respostas dos grandes problemas. O relator geral, cardeal Marc Ouellet, traçou pistas de reflexão para os padres sinodais. Parece pelo menos temerário [intempestivo] querer prefigurar já de início o resultado dos trabalhos sinodais como renovações de proibições ou discussões estéreis. As palavras do Papa deixam, ao contrário, pressentir sábias aberturas pastorais confiantes na Palavra de Deus, «fundamento de toda a realidade».

* * *

Controvérsia sobre Pio 12 se intensifica


Santidade para o papa do Holocausto?

O papa Bento 16 alimentou na quinta-feira passada as especulações sobre a possível beatificação do papa Pio 12, criticado com freqüência por não ter feito o suficiente para combater o Holocausto. O Vaticano tem trabalhado duro para melhorar a imagem popular de Pio.

Normalmente, o processo de beatificação é um negócio a portas fechadas, que acontece dentro do Vaticano, bem longe do olhar do público. Mas não dessa vez. Há meses a Igreja Católica está enviando sinais de que beatificação do papa Pio 12, que comandou a Igreja Católica durante a 2ª Guerra Mundial, pode ser iminente. Alguns historiadores e líderes judeus, entretanto, protestaram contra a atitude, argumentando que Pio 12 fez menos do que deveria para salvar os judeus do Holocausto.

O papa Bento 16 lançou na terça-feira uma saraivada de argumentos em defesa de Pio 12. Falando durante uma missa na Basílica de São Pedro em comemoração ao 50º aniversário da morte de Pio, Bento disse que o pontífice, que se tornou papa em 1939 logo antes do irromper da guerra, “trabalhou em silêncio e em segredo” durante o conflito “para evitar o pior e salvar o maior número possível de judeus.”

Bento lembrou ao público que a ministro israelense de relações exteriores Golda Meir homenageou Pio quando ele morreu em 9 de outubro de 1958. Bento 16 também enfatizou uma mensagem de Natal de Pio para o rádio em dezembro de 1942, na qual ele falou sobre as “centenas de milhares de pessoas que, sem terem cometido nenhum erro, apenas por razões de nacionalidade ou raízes étnicas, foram destinadas à morte ou à lenta deterioração.”

O processo de beatificação, a etapa formal final antes de declarar a santidade, “pode acontecer com alegria”, disse Bento 16 na quinta-feira.

Entretanto, nem todo mundo é tão otimista quanto à perspectiva de santificação de Pio 12. O rabino chefe da cidade de Haifa (em Israel), She’ar Yashuv Cohen, que na segunda-feira se tornou o primeiro judeu a falar diante do concílio de bispos do Vaticano, disse que muitos judeus estavam descontentes em relação a Pio.

“Sentimos que o finado papa deveria ter se posicionado mais fortemente do que fez”, disse numa entrevista coletiva antes de falar ao concílio. “Ele pode ter ajudado muitas vítimas e refugiados em segredo, mas a questão é: ele poderia ter erguido sua voz? E isso teria ajudado ou não? Nós, como vítimas, sentimos que (a resposta é) sim.”

Outros não foram tão diplomáticos. Num livro de 1999 chamado “Hitler’s Pope” [“O Papa de Hitler”], o escritor britânico John Cornwell documentou o papel de Pio antes de se tornar papa, na negociação do “Reichskonkordat”, tratado assinado entre a Alemanha Nazista e a Igreja Católica em 1933. Muitos historiadores argumentaram que esse acordo fornecia ao regime nazista um grau substancial de legitimidade internacional.

Mas a afirmação de Cornwell de que o papa Pio 12 falhou em tomar uma ação séria para salvar os judeus tem sido confrontada e o próprio autor se retratou de algumas de suas alegações mais controversas em relação à suposta aquiescência de Pio.

Mesmo assim, muitos judeus ainda são críticos em relação ao papel que Pio desempenhou. Sua foto no museu do Holocausto Yad Vashem inclui uma descrição bastante dura.

“Mesmo quando notícias do assassinato de judeus chegaram ao Vaticano, o papa não protestou nem verbalmente nem escrevendo”, diz a legenda.
“Em dezembro de 1942, ele se absteve de assinar a declaração aliada condenando o extermínio de judeus. Quando os judeus foram deportados de Roma para Auschwitz, o papa não interveio.”

A veracidade da legenda da foto foi questionada pelo Vaticano e o museu disse que estaria aberto a realizar uma nova pesquisa sobre o assunto. Os defensores de Pio argumentam que o papa da época da guerra trabalhou duro nos bastidores para proteger os judeus dos campos de concentração nazistas.

O jornal do Vaticano, L’Osservatore Romano, publicou na terça-feira um artigo de página inteira elogiando os esforços de Pio durante a 2ª Guerra Mundial. O jornal também incluía um texto escrito pelo secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Tarcisio Bertone. “Se ele tivesse feito uma intervenção pública, teria colocado em perigo a vida de milhares de judeus, que, sob suas ordens, foram escondidos em 155 conventos e monastérios apenas em Roma”, escreveu Bertone.

O padre jesuíta Peter Gumpel, que, como investigador-chefe do Vaticano, passou anos pesquisando sobre o papa para avaliar sua candidatura à santidade, deu sua bênção para a beatificação. Em entrevista ao jornal Süddeutsche Zeitung na terça-feira, Gumpel disse que leu tudo o que conseguiu encontrar, e teve acesso a arquivos do Vaticano que ainda não foram colocados à disposição do público.

“Se eu tivesse encontrado algo incriminador nos arquivos, eu nunca teria assinado”, disse Gumpel ao Süddeutsche. “Afinal, eu tenho muita responsabilidade como o juiz de investigação.”

O caminho para a beatificação do papa Pio 12, que começou em 1967, nem sempre foi direto e sofreu repetidos atrasos. Com o processo de beatificação aparentemente em marcha, alguns argumentam que este é o momento para a Igreja Católica abrir seus arquivos para que os historiadores independentes possam olhá-los.

“Eu gostaria que eles gastassem uma grande porcentagem de seu tempo e esforços para abrir os arquivos, e menos tempo selecionando o que apresentam”, disse Abraham Foxman da Liga Anti-Difamação (ADL) recentemente ao jornal National Catholic Reporter. Foxman e a ADL se opõem consistentemente à beatificação de Pio. “Eles estão protestando demais. Estamos dispostos a suspender o nosso julgamento e o Vaticano deveria suspender o seu (próprio) até que os acadêmicos pudessem examinar abertamente o material e ver o que existe lá.”

50 anos da morte de Pio XII

Hoje, o Santo Padre Bento XVI celebrou uma Capela Papal em comemoração pelo cinqüentenário da morte do Servo de Deus Pio XII. O Fratres in Unum acabou de publicar fotos da celebração. Da homilia pronunciada pelo Santo Padre, traduzo os textos a seguir, bem adequados à recente polêmica envolvendo a figura deste grande Príncipe da Igreja:

A Guerra [Segunda Guerra Mundial] pôs em evidência o amor que [Pio XII] nutria por sua “amada Roma”, amor testemunhado pela intensa obra caritativa que promoveu em defesa dos perseguidos, sem distinção alguma de religião, etnia, nacionalidade ou filiação política. Quando, ocupada a cidade, ele foi diversas vezes aconselhado a deixar o Vaticano para manter-se a salvo, a sua resposta sempre foi idêntica e decidida: “não deixarei Roma e nem meu posto, ainda que tivesse que morrer” (cfr Summarium, p.186). Os familiares e outras testemunhas referiram-se, além disso, à privação de alimento, aquecimento, vestuário e conforto, à qual ele se submeteu voluntariamente para compartilhar a mesma condição das pessoas duramente provadas pelos bombardeios e consequências da Guerra (cfr A. Tornielli, Pio XII, Un uomo sul trono di Pietro). E como esquecer a radiomensagem natalícia de dezembro de 1942? Com voz partida pela comoção, deplorou a situação das “centenas de milhares de pessoas que, sem nenhuma culpa própria, às vezes somente por razões de nacionalidade ou de família, são destinadas à morte ou a uma progressiva decadência” (AAS, XXXV, 1943, p. 23), em uma clara referência à deportação e ao extermínio perpetrado contra os judeus.

Agiu muitas vezes de modo secreto e silencioso justamente porque, à luz da situação concreta daquele complexo momento histórico, ele intuía que somente deste modo era possível evitar o pior e salvar o maior número possível de judeus. Por estas suas intervenções, numerosos e unânimes atestados de gratidão foram a ele dirigidos ao fim da Guerra, bem como no momento de sua morte, pelas maiores autoridades do mundo judeu, como, por exemplo, pelo Ministro do Estado de Israel Golda Meir, que assim escreceu: “quando o mais assustador martírio se abateu sobre o nosso povo, durante os dez anos do terror nazista, a voz do Pontífice se levantou em favor das vítimas”, concluindo com emoção: “nós choramos a perda de um grande servidor da paz”.

Infelizmente, o debate histórico sobre a figura do Servo de Deus Pio XII, nem sempre sereno, falhou em trazer à luz todos os aspectos do seu pontificado multifacetado. Muitíssimos [tantissimi] foram os discursos, as alocuções e as mensagens que manteve com cientistas, médicos, expoentes das categorias de trabalhadores mais diversas, algumas das quais conservam ainda hoje uma extraordinária atualidade e continuam a ser um ponto seguro de referência.

[…]

Caros irmãos e irmãs, enquanto rezamos para que prossiga felizmente a causa de beatificação do Servo de Deus Pio XII, é bonito recordar que a santidade foi o seu ideal, um ideal que não deixou de propôr a todos. (…) Neste nosso mundo que, como então, é assaltado por preocupações a angústias sobre o seu futuro; neste mundo onde, talvez mais do que então, o afastamento de muitos da verdade e da virtude deixa entrever cenários desprovidos de esperança, Pio XII nos convida a voltarmos o nosso olhar para Maria assunta na Glória Celeste. Convida-nos a invocá-la confiantes, para que nos faça apreciar sempre mais o valor da vida sobre a terra e nos ajude a volver o olhar para o objetivo verdadeiro ao qual somos todos destinados: aquela Vida Eterna que, como assegura Jesus, possui já quem escuta e segue a Sua Palavra. Amém!

Papa – crise mundial

Um amigo economista contou-nos que há, na segunda página do caderno de economia do Estado de São Paulo, uma coluna diária com “frases de impacto” curtas proferidas por algum economista ou analista econômico, e que estas frases costumam ser bem selecionadas. Acho que é a esta página que ele se refere. E, na edição de hoje, quem aparece com frase e foto é o papa Bento XVI. A frase é a seguinte:

“A crise financeira mundial mostra que a fé em Deus triunfará sobre a vida destinada à busca da riqueza material”.

Papa Bento XVI, discursando sobre a futilidade dos bens materiais

Interessante! Eu já havia visto na BBC uma matéria relacionada a isso, inclusive com comentários muito bons. Fui procurar a íntegra deste discurso do Santo Padre, e não o encontrei em português; provavelmente, as palavras do Papa foram colhidas desta meditação aos bispos participantes do Sínodo sobre a Palavra de Deus, que foi publicada em forma de reportagem, e não de íntegra. A íntegra está em italiano. No entanto, é curioso notar que o Papa não estava falando sobre crises de mercado, e sim sobre a palavra de Deus, em um comentário ao salmo 118(119). São palavras do Santo Padre [tradução livre]:

No fim do Sermão da Montanha, o Senhor nos fala das duas possibilidades de construir a casa da [nossa] própria vida: sobre a areia e sobre a rocha. Sobre a areia constrói quem constrói somente sobre coisas visíveis e tangíveis, sobre o sucesso, sobre a carreira, sobre o dinheiro. Aparentemente estas coisas são a verdadeira realidade. Mas tudo isso um dia passará. Vemo-lo agora, na quebra dos grandes bancos: este dinheiro desapareceu, não é nada. E assim todas essas coisas, que se parecem com a realidade verdadeira sobre a qual [se] assentam, são realidades de segunda ordem. Quem constrói a sua vida sobre essas realidades, sobre a matéria, sobre o sucesso, sobre tudo aquilo que parece [= que é aparência], constrói sobre a areia. Somente a Palavra de Deus é fundamento de toda a realidade, é estável como o Céu e ainda mais do que o Céu, é a [própria] realidade. Portanto devemos mudar o nosso conceito de realismo. Realista é quem reconhece na Palavra de Deus, nesta realidade aparentemente tão débil, o fundamento de tudo. Realista é quem constrói a sua vida sobre este fundamento que se mantém permanentemente. E, assim, aqueles primeiros versículos do salmo nos convidam a descobrir qual é a realidade e encontrar deste modo o fundamento da nossa vida, como construir a nossa vida.

O triste é encontrar alguns comentários ridículos sobre o assunto na internet, como se as palavras do Papa fossem uma intervenção autoritária e hipócrita em um assunto que não lhe diz respeito, ou como se algumas pessoas estivessem continuamente em “posição de ataque”, procurando qualquer coisa para criticar; porque, francamente, estas palavras do Santo Padre são tais que não deveriam desagradar ninguém que estivesse em seu estado normal. Mas isso a gente deixa pra lá… declinate a me maligni et scrutabor mandata Dei mei (Psalmorum 118, 115).

Aberto o Sínodo dos Bispos

Foi aberta ontem, pelo Papa Bento XVI, a 12º Assembléia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos. O sínodo – que tem como tema “a Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja” – acontece de 05 a 26 de outubro de 2008.

No Instrumentum Laboris, podemos encontrar capítulos interessantes, como por exemplo “Como interpretar a Bíblia segundo a fé da Igreja”, “Maria, modelo de acolhimento da Palavra para o crente” e “A missão da Igreja realiza-se na evangelização e na catequese”. Coisas óbvias, mas que precisam ser repetidas nos nossos dias. O Cardeal Levada já começou a repetição:

O purpurado reafirmou “a responsabilidade do magistério” como “Intérprete autêntico da Palavra de Deus”. “Só a viva Tradição eclesial – recordou – permite que a Sagrada Escritura seja compreendida como autêntica Palavra de Deus, que se torna guia, norma e regra para a vida da Igreja e o crescimento espiritual dos crentes”. “O que significa – sublinhou – a recusa de qualquer interpretação subjectiva ou puramente experiencial ou fruto de uma análise unilateral, incapaz de acolher em si o sentido global que no decurso dos séculos guiou a Tradição de todo o povo de Deus”.

“Neste horizonte – insistiu o cardeal Levada – emerge a necessidade e a responsabilidade do magistério, chamado a ser o intérprete autêntico da própria Palavra de Deus ao serviço de todo o povo cristão e para a salvação de todo o mundo; e também nós, bispos, conhecemos como são grandes as nossas responsabilidades como legítimos sucessores dos apóstolos e o que espera de nós a sociedade de hoje, à qual temos o dever de transmitir a verdade que, por nossa vez, recebemos”. Para o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, esta tarefa diz directamente respeito aos Bispos, em primeira pessoa.

Que o Espírito Santo ilumine os sucessores dos Apóstolos!

Não pode passar batido…

Amanhã, 04 de outubro, é o dia da Jornada Mundial do terço, evento que tenciona promover um “terço simultâneo”  a ser rezado pelos católicos de todo o mundo. Em Recife, ocorrerá na Igreja de Apipucos, das 15 às 18 horas.

– O Papa Bento XVI reafirmou a posição da Igreja, que condena os métodos contraceptivos. Segundo o pontífice, “[q]ualquer forma de amor tende a divulgar a plenitude com que se vive e o amor conjugal tem um modo próprio de se comunicar, que é gerar filhos”. Bravo! Veja-se também a notícia em ZENIT.

– Força dos católicos do leste europeu à época da perseguição: Eucaristia e Maria Santíssima. Como no sonho de Dom Bosco. A perseguição continua, todavia mais sutil: martírio moral, ao invés do martírio físico. Como outrora, somente ancorados com firmeza nas duas colunas da Virgem Santíssima e do Santíssimo Corpo de Cristo podemos sobreviver sem naufragar na Fé.

– Errata do Olavo de Carvalho: texto citado não existia. Comentei en passant o assunto aqui, e por isso comento também a errata. No entanto, segundo o mesmo, a citação era “apenas como ilustração, curiosa mas dispensável”. Aqui no blog, idem.

Bento XVI: Pio XII “não poupou esforços” para ajudar judeus

Hoje faz uma semana que foi aberto um simpósio em Roma sobre Pio XII, promovido pela Pave the Way Foundation. Na última quinta-feira, dia 19 de setembro, o Papa Bento XVI fez um pronunciamento no Simpósio – isto foi noticiado pelo YAHOO Notícias.

“Graças à vasta quantidade de material documentado que vocês reuniram, apoiados por muitos testemunhos avalizados, o seu simpósio oferece ao fórum público a possibilidade de saber mais plenamente o que Pio 12 conseguiu para os judeus perseguidos pelos regimes nazi-fascistas”, disse Bento 16.

“Depreende-se, então, que sempre que possível ele não poupou esforços em intervir em seu favor, seja diretamente ou por meio de instruções dadas a outros indivíduos ou a instituições da Igreja Católica”, acrescentou o pontífice aos participantes, que foram ouvi-lo em sua residência de verão ao sul de Roma.

E – isto não está na matéria do YAHOO, mas está no pronunciamento do Santo Padre – Bento XVI se referiu a Pio XII como Pastor Angélico:

The focus of your study has been the person and the tireless pastoral and humanitarian work of Pius XII, Pastor Angelicus. Fifty years have passed since his pious death here at Castel Gandolfo early on the ninth of October 1958, after a debilitating disease. This anniversary provides an important opportunity to deepen our knowledge of him, to meditate on his rich teaching and to analyze thoroughly his activities.
[O foco do vosso estudo foi a pessoa e o incansável trabalho pastoral e humanitário de Pio XII, Pastor Angelicus. Passaram-se cinqüenta anos desde a sua morte piedosa aqui, em Castelo Gandolfo, no início do dia 9 de outubro de 1958, após uma doença debilitante. Este aniversário oferece uma importante oportunidade de aprofundarmos o nosso conhecimento sobre ele, meditarmos sobre o seu rico ensinamento e analisarmos minuciosamente as suas atividades.]

Que este simpósio possa contribuir para que seja feita justiça à memória de um grande Príncipe da Igreja, o Servo de Deus Pio XII!

Herr Professor

Saiu no Le Monde (disponível para compra) e saiu uma tradução na mídia brasileira (só para assinantes), que eu recebi por email e reproduzo abaixo. A matéria é da autoria de Henri Tincq, que é um jornalista francês especialista em religião. Não o conhecia.

O google me mostrou outras coisas dele:

Henri Tincq’s Portrait of Josef Ratzinger (part I e part II), de 2005, em inglês.

Qui est Josef Ratzinger?, no Le Monde de abril de 2005, em francês.

Na minha opinião, o texto abaixo tem o seu valor principalmente pela – digamos – “consideração não-religiosa” da importância do papado de Bento XVI, bem como pela sóbria biografia do Santo Padre. E – eu não poderia deixar de salientar – pela citação a respeito da Liturgia, que é preciosa (grifos meus):

A liturgia não foi reformada, diz ele [o então padre Ratzinger], “para aumentar o número de pessoas que vão à missa”, mas sim para colocá-las “diante do gládio cortante da Palavra de Deus”. Ou seja, em outras palavras, a convicção teológica passa antes da conveniência pastoral. Mesmo que correndo riscos de passar por um nostálgico da antiga liturgia e por um aliado dos tradicionalistas, o papa jamais renegará este dogma.

A Igreja tem muito o que ensinar a todos os homens. Bom seria se o Papa fosse considerado (ao menos!) como um professor por aqueles que não professam a Fé Católica e Apostólica. Eis o sadio “diálogo com o mundo” que seria tão salutar!

* * *

Quando chamam o papa de “Herr Professor”

Henri Tincq

Este homem de 81 anos escreveu muitos livros, inclusive a respeito dele mesmo, e com pudor. Contudo, este autor prolífico, este universitário que dedicou cerca da metade da sua vida à sua função de docente antes de passar a ocupar os mais expostos entre os cargos da Igreja, permanece um enigma. Não se pode compreender sua visão trágica da história, seu combate contra o “relativismo” moral, sua fidelidade para com a antiga liturgia, sem antes reexaminar de perto o itinerário deste intelectual que revela ser muito mais atormentado do que sugerem as caricaturas que fazem dele.

Enquanto João Paulo 2º tinha a Polônia, Bento 16 tem a Bavária. Ou seja, dois pólos situados nessa Mitteleuropa – a “Europa do Meio”, cujas capitais são Cracóvia e Munique – onde os campanários dotados de um bulbo e a arte barroca esculpiram um catolicismo da Contra-Reforma; onde a liturgia, os ornamentos e os cânticos se fundem na paisagem rural, na vida familiar, nas festas, na cultura, no movimento das idéias e na música. Para Joseph Ratzinger, a Bavária não representa apenas um berço, como é também um santuário onde ele se alimenta da sua combinação de suavidade com perseverança. De um catolicismo bávaro encantado, ele herdou um gosto imoderado pela tradição, pela solenidade litúrgica, uma veneração pela música de Bach e de Mozart, além de um respeito repleto de melindres pelos ritos e os ofícios.

Da mesma forma que Karol Wojtyla, ele sofreu o ascendente de um pai militar que, ao sabor das transferências, deslocou sua família para cima e para baixo, entre o Inn e a Salzach – Joseph Ratzinger nasceu em 17 de abril de 1927 em Marktl-am-Inn -, nessa Baixa Bavária mais próxima da Áustria católica do que da Prússia protestante. Dentre os dois patriotismos bávaros do século 19 – o primeiro voltado para o Reich alemão, e o segundo, para o império austríaco, católico e grande admirador da França -, é neste último que se inscrevem os seus genes familiares. Contudo, o patriotismo da família Ratzinger é intenso, porém nem um pouco exaltado. Ao lado da sua irmã Maria e do seu irmão Georg, o futuro papa, que já se mostra tímido, solitário, introvertido, cresce em meio a um ambiente estudioso, pio, tranqüilo.

Esse mundo acaba desmoronando com a guerra. Tanto o alemão Ratzinger quanto o polonês Wojtyla passam a serem tragados muito cedo por dramas que iriam alimentar, neles, uma visão trágica da história, na qual estão vinculados a insensatez, a morte de Deus e o aniquilamento do homem. Na época, Joseph Ratzinger ainda é novo demais para assistir ao crescimento do nazismo, que ele descobre apenas através das explicações oferecidas pelo seu pai. “O 3º Reich o repugnava terrivelmente”, confessaria o futuro papa em sua autobiografia. Assim como todos os adolescentes, ele é alistado por meio da força para servir na Hitlerjugend (as Juventudes hitlerianas). Quando já era seminarista, ele foi mobilizado em Munique para participar da defesa antiaérea. Após ser internado num campo americano, ele foi libertado em junho de 1945.

Ratzinger nunca se mostrará muito loquaz em relação a este período. Em Auschwitz, em maio de 2006, Bento 16 chegará até mesmo a chocar a platéia no discurso em que ele apresenta sua análise a respeito do nazismo, o qual ele reduziu a um crime perpetrado “por um bando de criminosos”. Na opinião de Claude Dagens, um bispo e acadêmico, ele pertence “àquela geração de alemães que carregou nas costas todo o peso da culpabilidade”. Por serem raras, as suas declarações a respeito dessa questão são tanto mais valiosas. Em 2001, durante uma conferência na igreja Notre-Dame de Paris; e depois, em 6 de junho de 2004 em Caen (na Normandia), por ocasião do 60º aniversário do Desembarque dos Aliados, aquele que ainda não se tornou o cardeal Ratzinger identifica todas as barbáries – Auschwitz; o gulag; os genocídios no Camboja e em Ruanda – com ideologias fundamentadas na ruptura com Deus (“O inferno é viver na ausência de Deus”) e com a Razão, que se tornou cínica e enlouqueceu.

No seminário de Freysing, na Bavária, o jovem Ratzinger devora todos os livros, sejam eles de autoria de escritores contemporâneos alemães (Gertrud von Le Fort, Ernst Wiechert), ou estrangeiros (Dostoievski, Péguy, Claudel, Bernanos, Mounier, Mauriac). Ele descobre as idéias dos filósofos Heidegger e Jaspers, além de “testemunhas eminentes” como Thomas More, o cardeal Newman e Dietrich Bonhoeffer, que “fizeram prevalecer sua consciência acima do consenso geral”. Em teologia, ele lê Romano Guardini, Henri de Lubac e os mestres alemães: Luther (Martin Luther, 1483-1546, o pai do protestantismo), de quem ele conhece as idéias de cor e salteado e de quem ele admira o gênio espiritual, mais do que as realizações da Reforma; Rudolf Bultmann, o exegeta modernista, ou Karl Barth, o protestante que prega a primazia absoluta da palavra de Deus.

Contudo, nenhum destes, em sua opinião, é superior a Santo Agostinho (354-430). Uma alma atormentada, Agostinho carrega o peso do Mal e do pecado, os quais, segundo ele, são redimidos pela “graça”. Na qualidade de bispo, ele é uma testemunha da esperança cristã, num Império romano que está desmoronando. Ele encarnará a culpabilidade ocidental, até o advento de Luther e do jansenismo (nos séculos 17 e 18). Ou seja, uma visão do mundo insuperável no entender do jovem Ratzinger que, além da experiência da guerra, também preza em Agostinho a sua visão de um mundo “niilista”. Portanto, é a este Pai da Igreja que ele dedica a sua tese de doutorando em teologia (1953). Além disso, será por ocasião de um congresso “agostiniano” que ele virá pela primeira vez a Paris, em 1954.

Ratzinger não é um filósofo nem um moralista, diferentemente de João Paulo 2º, cujos estudos haviam sido impregnados pela fenomenologia (Max Scheler, Husserl), e que freqüentava os filósofos franceses Ricoeur e Levinas. Ratzinger é em primeiro lugar um teólogo, convencido de que a sua disciplina está acima da filosofia. As suas categorias se alimentam das obras dos Pais da Igreja (Agostinho, Gregório o Grande, Santo Máximo o Confessor), os quais ele costuma citar até hoje em abundância, e principalmente desde que se tornou papa, em seus escritos. A sua teologia ambiciona ser uma meditação, a partir das santas Escrituras, a respeito da história humana. Este posicionamento comportava certos riscos para a sua carreira universitária, diante dos seus “mestres” alemães ainda marcados pelas categorias petrificadas do néo-tomismo (movimento iniciado no final do século19, baseado numa revisão das idéias de São Tomás de Aquino -1225-1274) e da escolástica. Num primeiro momento, a sua tese sobre a teologia da história na obra de São Boaventura (1221-1274) não obtém uma nota suficiente.

Mas ele poderá saborear sua revanche durante o concílio Vaticano II (1962-1965) durante o qual, aos 35 anos, quando ainda era um jovem universitário em Bonn, ele atuaria como especialista a serviço do cardeal Joseph Frings, uma proeminente figura reformadora do concílio. “Ratzinger vivenciou este evento sem euforia”, comenta Claude Dagens. “Ele é antes um intelectual que não se deixar envolver pela exaltação do momento”. Na presença de sumidades tais como Karl Rahner, Hans Küng, Yves Congar ou Henri de Lubac, ele enxerga no concílio uma chance para o renascimento do pensamento teológico, por meio da reavaliação das santas Escrituras, dos escritos dos Pais da Igreja e de um diálogo com a cultura contemporânea. Em sua opinião, o ponto fundamental é a Revelação de Deus atualizada na história dos homens. Conforme ele havia desejado, o concílio aprova por meio de uma votação um documento de grande importância, a respeito das “duas fontes” da Revelação, as Escrituras compensando o peso da tradição.

Ratzinger chegou ao concílio como um inovador. Mas, dele saiu com a imagem de um conservador. Há mais de quarenta anos que corre esta lenda. O mal-entendido provém da reforma da liturgia, que foi implementada de uma maneira que ele considerava excessivamente radical. Logo, no discurso que ele pronuncia no Katholikentag de Bamberg, em 1966, o professor Ratzinger condena o arcaísmo litúrgico e a modernização desmedida. A liturgia não foi reformada, diz ele, “para aumentar o número de pessoas que vão à missa”, mas sim para colocá-las “diante do gládio cortante da Palavra de Deus”. Ou seja, em outras palavras, a convicção teológica passa antes da conveniência pastoral. Mesmo que correndo riscos de passar por um nostálgico da antiga liturgia e por um aliado dos tradicionalistas, o papa jamais renegará este dogma.

O mal-entendido agrava-se com a revolta estudantil. No final da década, Ratzinger passa a ensinar na universidade de Tübingen. Em 1969, ele enfrenta anfiteatros agitados. Na França, muitos são aqueles que não conseguem compreender – num país onde ela não é ensinada na universidade pública – que a teologia possa se transformar num campo de batalha. Em Tübingen, ela torna-se uma “ideologia revolucionária” no quadro da qual a referência ao Cristo se torna secundária, analisa Ratzinger, ferido por esta “traição”, e que prefere então voltar a ensinar na Bavária (em Ratisbon), rompendo também com a revista progressista “Concilium” para fundar uma outra publicação, a “Communio”, em parceria com Hans Urs von Balthazar. No decorrer dos desentendimentos que o cardeal vivenciará mais tarde, em Roma, com Hans Küng, o seu antigo colega em Tübingen, ou ainda com os teólogos da libertação, esta experiência terá uma influência decisiva.

Este alemão é acima de tudo um filho da Aufklärung, uma corrente de pensamento identificada com as Luzes, da qual ele não é tão radicalmente crítico quanto dizem. Enquanto, para ele, a Fé, sem a Razão, está ameaçada pelo “iluminismo”, a Razão, sem a Fé, está ameaçada pelo “positivismo”, que não atribui à ciência outra lei senão aquela do seu próprio desenvolvimento, sem qualquer preocupação com a ética. Mas, no entender de Ratzinger, as Luzes também criaram as condições políticas necessárias para a liberdade dos crentes. No diálogo que ele manteve, em janeiro de 2004, na Academia da Bavária, com o filósofo agnóstico Jürgen Habermas, o cardeal Ratzinger sublinhou a legitimidade da razão secular, quando o seu interlocutor admitiu que a razão moderna não pode prescindir do “potencial de sentido” da religião, sobre o qual está fundamentada a substância ética dos Estados de direito e das sociedades democráticas.

A grande obsessão do professor Ratzinger é mesmo aquela da “crise da Verdade”. Na Sorbonne, em 1999, ele declarou: “A Verdade, que era uma promessa confiável, atualmente não passa de uma expressão cultural da sensibilidade religiosa geral”. Será o caso de fazer deste papa o artesão de uma reafirmação identitária do catolicismo? A articulação entre a Revelação bíblica e a Razão grega é determinante em todos os seus ensinamentos. É nela que se inspira a encíclica “Fides et Ratio”, de João Paulo 2º (1998), e ainda o famoso discurso de Bento 16 em Ratisbon (2006), que será relembrado apenas por conta da citação histórica que inclui uma crítica contundente do Islã. Este papa emite um alerta ao homem contra toda subserviência da fé à razão de Estado, e contra toda subserviência da razão de Estado a uma fé. Neste sentido, ele está decidido a premunir o mundo contra toda forma de extremismo.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

Miscellaneous

Amanhã é a última audiência do Supremo Tribunal Federal sobre o assassinato eugênico de crianças deficientes no ventre de suas mães. De acordo com o que está agendado no site de notícias do Supremo, irão falar ainda:

16 de setembro de 2008

1. Dra. ELIZABETH KIPMAN CERQUEIRA
Titulo de Especialista em Ginecologia e Obstetrícia, Professora Adjunta por 2 anos na Faculdade de Ciência Médicas da Santa Casa de São Paulo, Secretária de Saúde do Município de Jacareí por 4 anos, Co-fundadora do Hospital e Maternidade São Francisco de Assis em Jacareí onde foi Diretora Clínica por 6 anos, Gerente de Qualidade do Hospital São Francisco, Diretora do Centro Interdisciplinar de Estudos Bioéticos do Hospital São Francisco, CPF: 422 080 098 00, RG 2 561 108, CRM-SP: 14 064.

2. CONECTAS DIREITOS HUMANOS E CENTRO DE DIREITOS HUMANOS
Representante: ELEONORA MENECUCCI DE OLIVEIRA
Socióloga, Professora Titular do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade de São Paulo, Coordenadora da Casa da Saúde da Mulher Prof. Domingos Deláscio, Relatora Nacional pelo Direito Humano à Saúde da Plataforma Brasileira de Direitos Humanos Econômicos Sociais e Culturais/ Organização das Nações Unidas no período de 2002 a 2004.

3. CONSELHO NACIONAL DE DIREITOS DA MULHER
Representante: MINISTRA NILCÉIA FREIRE, Presidente do Conselho Nacional de Direitos da Mulher

4. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA
Representante: DR. TALVANE MARINS DE MORAES, médico especializado em Psiquiatria Forense; Livre-docente e Doutor em Psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; Professor da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro – EMERJ (Cadeira de Psiquiatria Forense); Especialista em Medicina Legal e em Psiquiatria pela Associação Médica Brasileira; Membro de duas Câmaras Técnicas do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro – CREMERJ -, a saber: Perícia Médica e Medicina Legal.

Rezemos.

* * *

Não há argumentos religiosos por parte dos que defendem a inviolabilidade da vida das crianças deficientes. Os únicos que invocam questões religiosas são os partidários da eugenia. Isto precisa ser denunciado claramente. Veja-se, por exemplo, este belíssimo artigo de um religioso – Dom Odilo Scherer, cardeal-arcebispo de São Paulo – publicado no ESTADÃO no último sábado:

Fico feliz quando vejo a posição da Igreja Católica associada à defesa da estrita inviolabilidade da vida humana, mesmo ainda não nascida. Que isso fique registrado para o futuro. Mas aqui não se trata de defender um interesse da Igreja: a proteção da vida humana inocente e indefesa deveria interessar a todos, acima de concepções religiosas ou ideológicas; é questão de humanidade, não apenas de religião. Também por isso a postura da Igreja Católica não se fundamenta somente no seu pensamento religioso e suas convicções não se chocam necessariamente com o bom direito ou a ciência, nem estão fechadas para valores universais, compartilhados também com outros grupos religiosos e mesmo com ateus. Na defesa da vida não se deveria cair no ardil de contrapor argumentos de “religiosos” e de “não-religiosos”; a desqualificação imediata do interlocutor “religioso” poderia ser discriminação religiosa.

Importa defender a vida, desde a concepção até a morte natural. Esta é a posição da Igreja Católica. Mas não é uma posição religiosa. Alhos não têm nada a ver com bugalhos.

* * *

Não tinha visto ainda, mas o prof. Felipe Aquino fez uma bonita coletânea de mensagens do Papa Bento XVI aos jovens, por ocasião da última Jornada Mundial da Juventude. Vale a pena ler. Em particular:

20. “A sociedade contemporânea passa por um processo de fragmentação devido a uma forma de pensar que é, por sua natureza, de curto alcance porque deixa de lado o horizonte completo da verdade, verdade relativa a Deus e a nós. Por sua mesma natureza, o relativismo não consegue ver o quadro inteiro. Ignora os princípios que nos fazem capazes de viver e crescer na unidade, na ordem e a harmonia”.

Viva o Papa!

* * *

Uma atriz italiana mandou o Papa pro inferno e pode ser processada. O motivo? Protestar contra umas leis aprovadas para a educação (que, sinceramente, eu nem sei o que tem a ver com o Sumo Pontífice). O Sucessor de Pedro incomoda profundamente. Mas acho bom que os inimigos da Igreja estejam saindo das trevas e destilando o seu veneno ao sol do meio-dia.

Rezemos pelo Doce Cristo na Terra.