Nossa Senhora das Dores

Como era certa aquela intuição da bela figura espiritual francesa de Dom Jean-Baptiste Chautard, aquele que na “Alma de todo Apostolado” oferecia ao fervoroso cristão freqüentes encontros de olhar com a Virgem Maria! Sim, procurar o sorriso da Virgem Maria não é mais um piedoso infantilismo. É uma inspiração, diz o Salmo 44, daqueles que são ‘os mais ricos do povo’. Os ‘mais ricos’, entende-se, na ordem da fé, são aqueles que têm a maturidade espiritual mais elevada e sabem, por isso, reconhecer suas fragilidades e sua pobreza diante de Deus. Naquela manifestação muito simples de ternura que é o sorriso, percebemos que a nossa única riqueza é o amor que Deus tem por nós, e que passa através do coração daquela que se tornou nossa Mãe. Procurar este sorriso significa antes de tudo colher a gratuidade do amor; significa também saber suscitar este sorriso com o nosso compromisso em viver segundo a palavra de seu Filho predileto, assim como a criança tenta suscitar o sorriso da mãe, fazendo aquilo que ela gosta. E nós sabemos aquilo de que Maria gosta, graças às palavras que ela mesma dirigiu aos servos de Caná: “Façam aquilo que Ele vos disser”.
[Homilia do Papa na missa com os enfermos,
15 de setembro de 2008
Festa de Nossa Senhora das Dores
]

Após celebrarmos ontem a festa da Exaltação da Santa Cruz, hoje a Igreja celebra as Sete Dores de Maria Santíssima. A Cruz do Senhor, as Dores de Sua Mãe Imaculada. Uma bela seqüência litúrgica, que une o instrumento da nossa Redenção ao sacrifício Co-Redentor d’Aquela que soube unir as Suas Dores à Dor do Seu Divino Filho, em favor de nós.

Por quê, afinal, exaltar a Santa Cruz? Porque a Cruz é o sinal do cristão, e Cristo Crucificado nos ensinou, no alto do Calvário, o valor do sofrimento: fomos curados graças às Suas chagas (Is 53, 5). E por quê, ainda, relembrarmos as Dores de Maria Santíssima? Porque Aquela que Se conformou perfeitamente à vontade do Seu Divino Filho é-Lhe imitadora em tudo – de maneira particularíssima, na Dor. Devemos seguir os passos de Cristo junto com Sua Mãe Dolorosa. Devemos tomar a nossa Cruz a cada dia e seguir Jesus (cf. Mc 8, 34); e a Virgem, Mater Dolorosa, é a primeira a nos ensinar isso com o Seu exemplo. Neste Vale de Lágrimas, chora a Virgem, não pelos próprios pecados, mas pelos pecados dos Seus filhos; a Virgem penitente faz penitência não por Si própria – pois não tem necessidade – mas por aqueles que Ela ama maternalmente. Não conhecemos o suficiente o valor dos sofrimentos desta Senhora Imaculada em nosso favor! Somos duplamente ingratos, esquecendo-nos da Cruz de Cristo ontem exaltada e menosprezando as lágrimas da Virgem hoje vertidas por nós. Maria abraçou com prontidão a Cruz de Jesus Cristo e assumiu sem pestanejar as dores do Seu Filho, embora não tivesse pecados para Se penitenciar; e nós, que temos tantas faltas e tão grandes culpas, com que dificuldade fazemos penitência em nosso favor! Olhemos para a Virgem das Dores; que o amor desta Boa Mãe pelas nossas almas possa fazer com que as valorizemos mais. E que, pela intercessão de Nossa Senhora das Dores, nós possamos, seguindo os passos de Cristo até o Calvário, alcançarmos um dia a Bem-Aventurança Eterna à qual Ele nos chama. Amen.

* * *

Rezemos:

Litaniae Dominae nostrae Dolorum

Kyrie, eleison.
R. Christe, eleison.

Kyrie, eleison.
Christe, audi nos.
R. Christe, exaudi nos.

Pater de caelis, Deus,
R. miserere nobis.

Fili, Redemptor mundi, Deus,
R. miserere nobis.

Spiritus Sancte Deus,
R. miserere nobis.

Sancta Trinitas, unus Deus,
R. miserere nobis.

Sancta Maria,
R. ora pro nobis.

Sancta Dei Genetrix,
R. ora pro nobis.

Sancta Virgo virginum,
R. ora pro nobis.

Mater crucifixa,
R. ora pro nobis.

Mater dolorosa,
R. ora pro nobis.

Mater lacrimosa,
R. ora pro nobis.

Mater afflicta,
R. ora pro nobis.

Mater derelicta,
R. ora pro nobis.

Mater desolata,
R. ora pro nobis.

Mater filio orbata,
R. ora pro nobis.

Mater gladio transverberata,
R. ora pro nobis.

Mater aerumnis confecta,
R. ora pro nobis.

Mater angustiis repleta,
R. ora pro nobis.

Mater cruci corde affixa,
R. ora pro nobis.

Mater maestissima,
R. ora pro nobis.

Fons lacrimarum,
R. ora pro nobis.

Cumulus passionum,
R. ora pro nobis.

Speculum patientiae,
R. ora pro nobis.

Rupes constantiae,
R. ora pro nobis.

Ancora confidentiae,
R. ora pro nobis.

Refugium derelictorum,
R. ora pro nobis.

Clipeus oppressorum,
R. ora pro nobis.

Debellatrix incredulorum,
R. ora pro nobis.

Solatium miserorum,
R. ora pro nobis.

Medicina languentium,
R. ora pro nobis.

Fortitudo debilium,
R. ora pro nobis.

Portus naufragantium,
R. ora pro nobis.

Sedatio procellarum,
R. ora pro nobis.

Recursus maerentum,
R. ora pro nobis.

Terror insidiantium,
R. ora pro nobis.

Thesaurus fidelium,
R. ora pro nobis.

Oculus Prophetarum,
R. ora pro nobis.

Baculus Apostolorum,
R. ora pro nobis.

Corona Martyrum,
R. ora pro nobis.

Lumen Confessorum,
R. ora pro nobis.

Margarita Virginum,
R. ora pro nobis.

Consolatio Viduarum,
R. ora pro nobis.

Laetitia Sanctorum omnium,
R. ora pro nobis.

Agnus Dei, qui tollis peccata mundi,
R. parce nobis, Iesu.

Agnus Dei, qui tollis peccata mundi,
R. exaudi nobis, Iesu.

Agnus Dei, qui tollis peccata mundi,
R. miserere nobis, Iesu.

Respice super nos, libera nos, salva nos ab omnibus angustiis in virtute Iesu Christi. Amen.

Scribe, Domina, vulnera tua in corde meo, ut in eis legam dolorem et amorem: dolorem, ad sustinendum per te omnem dolorem: amorem, ad contemnendum per te omnem amorem.

Credo.

Salve Regina.

Ave Maria.

Ave Maria.

Ave Maria.

Fim da viagem do Santo Padre

Senhor Primeiro Ministro, Irmãos Bispos e caros amigos, que Deus abençoe a França! (…) É chegado o momento de partir. Poderei voltar novamente ao vosso belo país? É o meu desejo, um desejo que, no entanto, confio a Deus. De Roma vós continuareis próximos e, quando eu estiver diante da réplica da Gruta de Lourdes, que há mais de um século se encontra nos Jardins Vaticanos, pensarei em vós. Que Deus vos abençoe!
[Cerimonia di congedo, lunedì 15 settembre 2008]

Hoje, dia 15 de setembro, findou a viagem apostólica do Santo Padre à França. A cobertura completa está no (que eu acredito ser o) site oficial da visita do papa, em francês. Unamo-nos à intenção do Santo Padre: que Deus abençoe a França. E que a viagem possa ser proveitosa para toda a Igreja. Que a Virgem de Lourdes possa alcançar, do Seu Filho Jesus, muitas graças para todo o povo de Deus.

Bento XVI e a Conferência Francesa

Do discurso do Santo Padre de ontem aos lobos mitrados à Conferência Episcopal Francesa, domingo dia 14 de setembro de 2008, festa de exaltação da Santa Cruz e primeiro aniversário da entrada em vigor do motu proprio Summorum Pontificum (negritos e sublinhados meus):

El pueblo cristiano debe teneros afecto y respeto. La tradición cristiana ha hecho hincapié desde el principio en este punto: «Los que son de Dios y de Jesucristo, están con el Obispo», decía san Ignacio de Antioquía (Ad Phil., 3,2), que añadía también: «A quien el dueño de la casa haya mandado para la administración de la casa, hay que recibirlo como al que lo ha mandado (Ad Ef. 6, 1). Vuestra misión, espiritual sobre todo, consiste, pues, en crear las condiciones necesarias para que los fieles, citando de nuevo a san Ignacio, puedan «cantar al unísono por Jesucristo un himno al Padre» (ibíd., 4, 2) y hacer así de su vida una ofrenda a Dios.

[…]

Sí, queridos Hermanos en el Episcopado, seguid llamando al sacerdocio y a la vida religiosa, como Pedro echó las redes por orden del Maestro, tras pasar una noche de pesca sin obtener nada (cf. Lc 5,5).

Nunca se repetirá bastante que el sacerdocio es esencial para la Iglesia, por el bien mismo del laicado. Los sacerdotes son un don de Dios para la Iglesia. No pueden delegar sus funciones a los fieles en lo que se refiere a las misiones que les son propias. Queridos Hermanos en el Episcopado, os invito a seguir solícitos para ayudar a vuestros sacerdotes a vivir en íntima unión con Cristo. Su vida espiritual es el fundamento de su vida apostólica. Exhortadles con dulzura a la oración cotidiana y a la celebración digna de los sacramentos, especialmente de la Eucaristía y la Reconciliación, como lo hacía San Francisco de Sales con sus sacerdotes. Todo sacerdote debe poder sentirse dichoso de servir a la Iglesia. A ejemplo del cura de Ars, hijo de vuestra tierra y patrono de todos los párrocos del mundo, no dejéis de reiterar que un hombre no puede hacer nada más grande que dar a los fieles el cuerpo y la sangre de Cristo, y perdonar los pecados. Tratad de estar atentos a su formación humana, intelectual y espiritual, y a sus recursos para vivir. Pese a la carga de vuestras gravosas ocupaciones, intentad encontraros con ellos regularmente, sabiéndolos acoger como hermanos y amigos (cf. Lumen gentium, 28; Christus Dominus, 16). Los sacerdotes necesitan vuestro afecto, vuestro aliento y solicitud. Estad a su lado y tened una atención especial con los que están en dificultad, los enfermos o de edad avanzada (cf. Christus Dominus, 16). No olvidéis que, como dice el Concilio Vaticano II usando una espléndida expresión de san Ignacio de Antioquía a los Magnesios, son «la corona espiritual del Obispo» (Lumen gentium, 41).

El culto litúrgico es la expresión suprema de la vida sacerdotal y episcopal, como también de la enseñanza catequética. Queridos Hermanos, vuestro oficio de santificar a los fieles es esencial para el crecimiento de la Iglesia. Me he sentido impulsado a precisar en el “Motu proprio” Summorum Pontificum las condiciones para ejercer esta responsabilidad por lo que respecta a la posibilidad de utilizar tanto el misal del Beato Juan XXIII (1962) como el del Papa Pablo VI (1970). Ya se han dejado ver los frutos de estas nuevas disposiciones, y espero el necesario apaciguamiento de los espíritus que, gracias a Dios, se está produciendo. Tengo en cuenta las dificultades que encontráis, pero no me cabe la menor duda de que podéis llegar, en un tiempo razonable, a soluciones satisfactorias para todos, para que la túnica inconsútil de Cristo no se desgarre todavía más. Nadie está de más en la Iglesia. Todos, sin excepción, han de poder sentirse en ella “como en su casa”, y nunca rechazados. Dios, que ama a todos los hombres y no quiere que ninguno se pierda, nos confía esta misión haciéndonos Pastores de su grey. Sólo nos queda darle gracias por el honor y la confianza que Él nos otorga. Por tanto, esforcémonos por ser siempre servidores de la unidad.

[…]

Queridos Hermanos en el Episcopado, con alegría y emoción os encomiendo a Nuestra Señora de Lourdes y a Santa Bernadette. El poder de Dios se ha manifestado siempre en la debilidad. El Espíritu Santo ha lavado siempre la suciedad, regado lo árido, enderezado lo torcido. Cristo Salvador, que ha tenido a bien convertirnos en instrumentos para transmitir su amor a los hombres, nunca dejará de haceros crecer en la fe, la esperanza y la caridad, para daros el gozo de llevar a Él un número creciente de hombres y mujeres de nuestro tiempo. A la vez que os confío a su fuerza de Redentor, os imparto a todos y de corazón una afectuosa Bendición Apostólica.

Comento eu: que despedida mais apropriada! Aludir, falando à Conferência Episcopal Francesa, ao Deus que é a solução para toda debilidade, sujeira, aridez e coisas tortas caiu como uma luva!

SSPX sobre a viagem do Papa

Traduzido do Rorate Coeli (segundo recebi por email):

Mensagem da FSSPX – Distrito da França

Por ocasião da visita do Sumo Pontífice ao nosso país, declaramos nosso firme compromisso para com a Sé Apostólica. Estamos muito satisfeitos pela vinda do Papa Bento XVI ante a Gruta na ocasião do sesquicentenário das aparições de Lourdes – tão caras ao coração dos franceses e, também, de todos os católicos. Com o Rosário, rezemos à Santíssima Virgem Maria para que o sucessor de Pedro, nesta época em que o governo da Igreja é incrivelmente difícil de ser guardado, possa encontrar em Lourdes iluminação e força para reconhecer, denunciar, e erradicar os erros conciliares que são, em essência, a causa da crise da Igreja.

Oremos para que a fé católica, fora do qual ninguém pode ser salvo, seja dada às almas, e que o Cristo Rei possa reinar, mais uma vez, sobre os países e as sociedades.

Abbot Régis de Cacqueray-Valménier
Superior do Distrito da França

A mensagem havia começado tão bem…

O Papa e o Summorum Pontificum

Eu havia estranhado a resposta dada pelo Santo Padre a um jornalista, no avião que o levava à França, sobre o Motu Proprio Summorum Pontificum (cuja entrada em vigor completa um ano amanhã). No entanto, o Fratres in Unum traduziu a versão oficial das respostas do Papa, publicadas na Sala de Imprensa da Santa Sé.

A diferença fundamental entre os dois textos está na pergunta. Veja-se:

Na Radio Vaticana: Respondendo a outro jornalista, que lhe perguntou sobre o motu proprio, que permite celebrar a Missa em latim, como um passo atrás ao Concílio (…).
Na Sala de Imprensa da Santa Sé: O que vós dizeis aos que, na França, temem que o Motu proprio `Summorum pontificum’ marque um passo atrás sobre as grandes intuições do Concílio Vaticano II? Como vós podeis tranqüilizá-los?

Ou seja, a resposta do Papa não é uma “consideração particular” sobre o motu proprio que ele julgou necessário expôr; é, ao contrário, uma resposta tranquilizadora provocada por uma pergunta de um jornalista sobre o temor de alguns franceses. Faz toda a diferença.

Viagem do Papa à França

Começou hoje a primeira viagem apostólica do Papa Bento XVI à França. O Sumo Pontífice visitará a terra banhada pelo Reno (e pelo sangue dos católicos durante a Revolução de 1789…) de 12 a 15 de setembro, por causa do sesquicentenário das aparições de Nossa Senhora de Lourdes.

O Missal disponibilizado no site do Vaticano para esta viagem tem quase duzentas páginas. Cânticos em francês e em gregoriano, leituras da Bíblia em alemão, preces em português, árabe, em uma língua africana, polonês, chinês. Nas missas em Lourdes, cânon em latim. A de 15 de setembro, cânon romano. E um apêndice com algumas orações em latim e em francês. Très bien.

Não li nenhuma das mensagens do Santo Padre, pois até agora só as encontrei em Francês. Entretanto, li n’O GLOBO que o Papa pediu para que a França “cultive Deus na sociedade”:

– É importante nos tornarmos mais atentos quanto ao papel insubstituível da religião para a formação da consciência e a criação de um consenso étnico básico com a sociedade – disse o papa em francês fluente.

Os franceses gostam do Papa, segundo a Agência Ecclesia:

Mais de metade dos franceses têm opinião positiva do Papa Bento XVI, segundo uma sondagem de opinião levada a cabo pelo jornal “Le Parisien”.

A sondagem revela que 53% dos franceses em geral partilham desta opinião, um número que sobe para 65% entre aqueles que se declaram católicos. 53% dos católicos e 47% do geral definem o Papa como carismático.

A Rádio Vaticano noticiou o que aconteceu durante o vôo:

Respondendo a outro jornalista, que lhe perguntou sobre o motu proprio, que permite celebrar a Missa em latim, como um passo atrás ao Concílio, o Santo Padre respondeu: “É claro que a Liturgia conciliar renovada é aquela ordinária para a Igreja. O motu proprio é simplesmente um ato de tolerância pastoral para com as pessoas que receberam formação no período pré-conciliar. Portanto, é absolutamente infundado – concluiu – o fato de a liturgia em latim ser um retrocesso na Igreja”.

Rezemos pelo Sucessor de Pedro, Doce Cristo na Terra, para que a viagem possa ser proveitosa, e para que o Sando Padre, aos pés da Virgem de Lourdes, obtenha muitas graças para a Igreja.

“Reforma contra o Modernismo”

A Montfort publicou uma interessante entrevista concedida pelo pe. Joseph Luzuy, do Instituto Cristo Rei (instituto que, segundo insinua o Fedeli, não poderia contar com o apoio da Montfort porque “aceita a Missa Nova”; o que confere uma certa isenção à entrevista). Destaco alguns aspectos que julguei mais relevantes.

[S]obre a cruz[,] Cristo, morrendo[,] não  foi compreendido. Ele expirou no mistério e não houve necessidade de tradutores ou de divulgadores para explicar aquele mistério. Portanto, se Cristo morto na Cruz é o mistério por excelência, por que razão a Missa deveria ser toda e racionalmente compreensível?

A comparação é primorosa, e confesso ser a primeira vez que a vejo! Se por um lado é verdade que os ritos litúrgicos “devem adaptar-se à capacidade de compreensão dos fiéis” (Sacrossantum Concilium, 34), por outro lado é igualmente verdade que a Paixão de Cristo – tornada presente em cada missa – é um dos principais Mistérios da nossa Fé e, portanto, por definição, transcende a compreensão humana. Esta verdade anda bem esquecida nos nossos dias, e neste sentido o latim ajuda a manter o Santo Sacrifício envolto num saudável véu de mistério, até mesmo por dificultar aos fiéis a compreensão completa e meramente racional de todas e cada uma das partes da Liturgia.

Sempre defendi que existem “graus de ignorância”. Oras, a Santa Missa simplesmente não pode ser compreendida em sua totalidade. Portanto, o latim (não-compreendido) ajuda os fiéis a saberem que não entendem por completo o que está se desenrolando diante dos seus olhos. Eles não sabem e sabem que não sabem. O vernáculo, ao contrário, passa a falsa impressão de que se entende completamente tudo o que está acontecendo, afinal, o significado das palavras é conhecido… portanto, hoje em dia, não é que as pessoas “compreendam mais” a missa por causa do vernáculo, é exatamente o contrário: eles não compreendem e julgam compreender, e isso é muito pior do que o primeiro caso. É uma ignorância muito mais grave.

Creio que esteja se dando, especialmente após o Vaticano II, mas não por culpa dele, um processo de protestantização da cultura religiosa, da liturgia e nos próprios estudiosos.

A acusação é grave, mas respeitosa e digna de atenção. O problema – já infinitas vezes reportado – é a utilização indevida de textos conciliares para que sejam “justificadas” as maiores barbaridades. Creio já ter falado aqui, mas repito: urge resgatar o Concílio da mão dos hereges e colocá-lo de novo a serviço da Igreja de Cristo, para a maior glória de Deus.

Circulam rumores que esteja em estudo uma reforma da liturgia, com a troca da paz antes do Ofertório, a comunhão de joelhos e o canon em latim, o senhor confirma isso?

“Não sei quando isso se dará. Mas eu também ouvi os mesmos rumores e me congratulo com eles. Posso confirmar lhe que essas  indicações estão em vias de serem feitas: nada sei sobre a real atuação e o tempo. Mas o projeto existe.”

Não é a primeira vez que isto é noticiado; permita Deus que o Papa Bento XVI, gloriosamente reinante, possa ser conservado ainda por muitos anos no trono de Pedro! E, às vésperas do aniversário de um ano da entrada em vigor do motu proprio Summorum Pontificum (próximo domingo, dia 14 de setembro, festa de Exaltação da Santa Cruz), rezemos pelo Papa e pelo triunfo da Santa Igreja:

V. Oremus pro Pontifice nostro Benedictus.
R. Dominus conservet eum, et vivificet eum, et beatum faciat eum in terra, et non tradat eum in animam inimicorum eius.

Pater Noster.
Ave Maria.

Deus, omnium fidelium pastor et rector, famulum tuum Benedictus, quem pastorem Ecclesiae tuae praeesse voluisti, propitius respice: da ei, quaesumus, verbo et exemplo, quibus praeest, proficere: ut ad vitam, una cum grege sibi credito, perveniat sempiternam. Per Christum, Dominum nostrum. Amen.

“O servo fiel e prudente”

(Texto escrito a quatro mãos:
Gustavo Souza et Jorge Ferraz
)

O servo fiel e prudente

“Quis putas est fidelis servus et prudens, quem constituit dominus supra familiam suam, ut det illis cibum in tempore? Beatus ille servus, quem cum venerit dominus eius, invenerit sic facientem. Amen dico vobis quoniam super omnia bona sua constituet eum”.
“Quem julgais que é o servo fiel e prudente, que o senhor pôs à frente da sua família para os alimentar a seu tempo? Feliz esse servo a quem o senhor, ao voltar, encontrar assim ocupado. Em verdade vos digo: Há-de confiar-lhe todos os seus bens”
(Mt 24, 45-47).

Ainda no espírito do Evangelho de domingo passado (Mt 16,13-20), o qual nos apresenta a instituição da Igreja e do Papado, teceremos alguns comentários a respeito de uma figura que sempre foi sistematicamente vilipendiada pelos meios de comunicação: o Papa, verdadeiro mártir devido às inúmeras incompreensões e perseguições que sofre nos dias de hoje.

A mídia [em especial, a do Brasil] tenta sempre passar para o povo uma imagem o mais negativa possível do Sucessor de Pedro. No início do seu pontificado, o “espantalho” preferido dos meios de comunicação anticlericais era aquele segundo o qual Bento XVI seria um inquisidor (já que, quando cardeal, Joseph Ratzinger presidiu a Congregação para a Doutrina da Fé, antigo Santo Ofício). Depois, naquele malfadado episódio sobre o discurso do Papa na Universidade de Ratisbona, na Alemanha, os meios de comunicação tentaram disseminar que o Romano Pontífice era um preconceituoso “eurocêntrico” que não tinha nenhum respeito ao Islã. Depois, ainda, quando o Santo Padre declarou que os casais de segunda união representavam uma “piaga”, isto é, uma “chaga” na sociedade moderna, tentou-se mostrar que o Sucessor de Pedro tinha dado uma demonstração cabal de sua personalidade anacrônica que – “sem abertura ao novo” – considerava tais casais uma “praga”. Na visita ao Brasil, em maio de 2007, a imprensa esperava um Papa sisudo, com ares puritanos [na realidade, encontrou um homem dócil, afável, um verdadeiro pastor, disposto a largar noventa e nove ovelhas para buscar aquela que se perdeu (Mt 18, 12-13)]. Sem contar os foliões que – por ocasião das festividades do carnaval – vestem-se de papa, debochando do líder católico e, não raro, causando escândalo e praticando orgias que insinuam às pessoas ser o Papa, como eles, devasso. Enfim, os ataques são muitos e de todos os lados. Mas, diante de tantos episódios tristes de ataque ao Servo dos Servos de Deus percebemos duas coisas:

– o ministério petrino precisa ser melhor compreendido; e
– cumprem-se as promessas de perseguição que Jesus fez no Evangelho de São Marcos (Mc 10, 30).

Em face de tantas interpretações maldosas – e mal feitas -, a supracitada passagem do Evangelho de São Mateus (em epígrafe) nos convida a um questionamento muito pertinente: Quem é o Santo Padre? Como ele deve agir?

As diretrizes da ação do papa – que acabam se tornando suas características – é Jesus mesmo quem descreve, no Evangelho. Espera-se que ele seja Fiel e Prudente. Comentando este Evangelho, São João Crisóstomo vai nos dizer:

“Duas coisas o Senhor exige de semelhante servo, a saber, prudência e fidelidade. Chama em verdade fiel àquele que não se apropria de nada do que pertença a seu Senhor, nem gasta inutilmente as Suas coisas. E chama prudente àquele que conhece o modo com o qual convém administrar o que lhe foi confiado” [homiliae in Matthaeum, hom. 77,3, in Catena Aurea, tradução livre]

Olhemos estas duas características mais a fundo:

Fiel – fiel às tradições da Igreja, leal a Jesus Cristo e à sua Boa Nova. A fidelidade tem um quê de coerência e, sobretudo, de comprometimento com a Verdade; o Papa não pode se apropriar daquilo que pertence a Deus e usar ao seu arbítrio aquilo que lhe foi confiado para defender e propagar! Também de dentro da Igreja, muitas vezes surgem críticas ao Santo Padre. Muitos grupos “tradicionalistas” já ousaram [e alguns ainda ousam] dizer o Papa filiou-se ao modernismo; que já não faz as coisas “de sempre”. A pretensão de certos “fiéis” chega a tanto que muitos acabam por se esquecer de que Jesus roga pelo Seu Servo a fim de que a Fé dele não desfaleça e, assim, ele possa confirmar a Fé de seus irmãos (Lc 22, 32). A fidelidade do Papa é um dom que Deus concede em atenção à oração de Seu Filho Jesus.

Prudente – o Santo Padre deve ser prudente. Mesmo quando acusado de antiquado, retrógrado ou qualquer adjetivo semelhante, ele deve estar atento às palavras do apóstolo Paulo: “(…) virá o tempo em que os homens já não suportarão a sã doutrina da salvação. Levados pelas próprias paixões e pelo prurido de escutar novidades, ajustarão mestres para si. Apartarão os ouvidos da verdade e se atirarão às fábulas. Tu, porém, sê prudente em tudo, paciente nos sofrimentos, cumpre a missão de pregador do Evangelho, consagra-te ao teu ministério” (2Tm 4, 3-5). Ao mesmo tempo, deve ter o discernimento para saber como convém anunciar a Boa Nova, segundo as variedades das pessoas, dos tempos e dos lugares, de acordo com o conselho do mesmo São Paulo (Hb 5, 12-14). Jesus já havia aconselhado: “Sede prudentes como as serpentes” (Mt 10, 16).

O Papa, portanto, precisa ser ao mesmo tempo Fiel e Prudente. Alguns ditos “católicos” não percebem isto e, dissociando uma dessas características da outra, terminam por exigir que o Papa se comporte segundo a caricatura pontifícia por eles criada. Os modernistas, por exemplo, querem um Papa “somente prudente” que, em nome do politicamente correto, trabalhe incessantemente para evitar as discórdias e adaptar a Igreja às exigências do mundo moderno – mesmo que isso implique em sacrificar a Verdade. Já os rad-trads, no extremo oposto, negam ao Papa o direito de se exprimir da maneira que ele julgar mais conveniente – mesmo que, com isso, dificultem que a Boa Nova chegue ao conhecimento de todos os homens -, considerando que a menor alteração na forma como são ditas as verdades de Fé implica numa traição ao Depósito da Fé. Quando o Papa fala, pois, é duplamente atacado: os modernistas de um lado o chamam de imprudente e os rad-trads, do outro, de infiel. Levantando-se e fazendo frente aos dois erros opostos, todavia, ergue-se o Sumo Pontífice, coluna da Igreja, referencial seguro da Verdade Eterna, o servus servorum Dei. A expressão – que já era cara a São Gregório Magno – indica-nos qual é exatamente a natureza da função do Papa na Igreja de Cristo [“Quem quiser ser grande entre vós, faça-se vosso servidor (διάκονος); e quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se o servo de todos” (Mc 10, 43-44)] e completa-nos a definição de quem é o Papa: est fidelis servus et prudens.

Além disso, o Papa deve ser amado por ter uma vocação única entre todos os homens do mundo. Alguns podem dizer: “ah, Jesus poderia ter escolhido qualquer um”. De fato, a vontade divina é soberana e poderia ter escolhido qualquer um. Mas este, precisamente o que foi escolhido, vai sempre carregar o selo da eleição divina. Quem quer que seja, a partir do momento em que Deus o chama, passa a ser “o escolhido”. A eleição é sinal de amor. Se Deus ama o Papa, por que nós não o amaremos?

Ainda olhando para o trecho bíblico de S. Mateus que encabeça este texto, podemos contemplar a figura do Santo Padre como guardião dos Sagrados Mistérios, administrador e dispensador dos tesouros da Igreja, em especial a Santíssima Eucaristia. A Eucaristia é o alimento com o qual Deus nutre a nossa alma. E o Papa Bento XVI tem exercido o ofício de guardião deste Mistério de modo magistral. Primeiro, escrevendo aquela magnífica exortação apostólica chamada Sacramentum Caritatis, na qual o mistério da Eucaristia é aprofundado (mas não esgotado), em continuidade com a Encíclica Ecclesia de Eucharistia, de autoria do Papa João Paulo II, de felicíssima memória. Depois, através do motu proprio Summorum Pontificum, no qual se estabeleceu que a rica liturgia tridentina deve ser tratada como Forma Extraordinária do Rito Romano, podendo ser celebrada por qualquer sacerdote que o deseje, sem necessidade de indulto por parte do Ordinário local. Além disso, as atitudes mais recentes do Chefe da Igreja Universal têm mostrado o grande apreço que ele tem ao Santo Sacrifício: a comunhão de joelhos que tem feito questão de administrar nas celebrações em Roma, por exemplo, mostram a piedade eucarística de Bento XVI. A Igreja vive da Eucaristia – como esperar, então, que aquele que foi colocado como Cabeça Visível da Igreja (para alimentar a família de Deus no tempo oportuno) pudesse não ser profundamente devoto deste tão sublime Sacramento?

Em suma, o “servo fiel e prudente” é – de maneira especialíssima – o Papa. E ele tem feito o seu papel. Ponhamo-nos nós, leigos, no nosso lugar, e desprezemos os juízos maldosos que muitas vezes são feitos a respeito da pessoa e do ministério do Sucessor de Pedro. Roguemos a Santa Catarina de Sena que nos ensine e nos ajude a amar o “Doce Cristo na Terra”. Que possamos afirmar com os Padres da Igreja: é somente “cum Petrus et sub Petrus” (com Pedro, e sob Pedro) que queremos marchar neste Vale de Lágrimas rumo à Pátria Celeste .

Novas sobre o Summorum Pontificum

Perto de completar um ano de vigoramento, o Motu Proprio Summorum Pontificum vai ser objeto de um documento-instrução da Comissão Ecclesia Dei. A notícia publicada no Portal Petrus é animadora: fala de “muitos bispos e padres desobedientes” e de uma “nota esclarecedora sobre o motu proprio do Papa” que está sendo preparada.

Quem confirmou foi o Mons. Perl, secretário da citada Comissão Pontifícia:

E’ vero, stiamo redigendo un documento-istruzione sulla giusta interpretazione del Motu Proprio ‘Summorum Pontificum’ che ha liberalizzato la Messa secondo i libri liturgici di San Pio V cosi’ come modificati dal Beato Giovanni XXIII.
[É verdade, estamos redigindo um documento-instrução sobre a justa interpretação do Motu Proprio ‘Summorum Pontificum’, que liberou a Missa segundo os livros litúrgicos de São Pio V, tal como modificados pelo Beato João XXIII]

Sobre as causas do motu proprio ter sido mal recebido, afirma o secretário:

Oggi, in tutti i campi della società, si è perso il senso dell’obbedienza e del rispetto dell’autorità.
[Hoje, em todos os campos da sociedade, foi perdido o sentido de obediência e de respeito à autoridade]

Sobre o Missal Tridentino e o Vaticano II:

Assolutamente no, il Concilio Vaticano II non ha mai cancellato il messale anteriore. Ritengo che il Papa Benedetto XVI abbia fatto bene a liberalizzarlo, valorizzando così un patrimonio e un gioiello della Chiesa. Non voglio fare una comparazione tra la Messa di Papa Paolo VI e quella anteriore, non sarebbe giusto.
[Absolutamente não, o Concílio Vaticano II nunca cancelou o missal anterior. Acredito que o Papa Bento XVI fez bem em liberá-lo, valorizando assim um patrimônio e uma jóia da Igreja. Não quero fazer uma comparação entra a missa de Paulo VI e a anterior, não seria justo]

Sobre os abusos litúrgicos:

E nessuno riesce ad eliminarli, proprio perchè, come le ho detto, non esiste il senso del rispetto dell’autorità. (…) Si è pensato che il nuovo fosse migliore, che il nuovo sia sempre migliore. Succede così anche nella vita di tutti i giorni, le scarpe nuove vengono considerate meglio di quelle vecchie…
[E ninguém consegue eliminá-los [os abusos], exatamente porque, como eu disse, não existe o sentido de respeito à autoridade. (…) Pensou-se que o novo fosse melhor, que o novo é sempre melhor. Acontece assim também na vida diária, os sapatos novos são considerados melhores do que os velhos…]

E, por último, sobre a FSSPX:

Non sono assolutamente scomunicati coloro i quali assistano ad una Messa della fraternità di San Pio X. La liturgia è valida, anche se loro sono considerati scismatici. Del resto, è valida per i cattolici anche la liturgia degli ortodossi.
[Não estão excomungados, absolutamente, aqueles que assistem a uma Missa celebrada pela Fraternidade São Pio X. A Liturgia é válida, mesmo eles sendo considerados cismáticos. De resto, é válida para os católicos como a liturgia dos ortodoxos]

Todas as traduções são livres.

Manchete capciosa

Uma bela mensagem sob um título malicioso: Papa admite mais flexibilidade em relação à admissão dos fiéis aos sacramentos. A malícia está no fato de que o único “rigor” existente em relação à administração dos sacramentos é a exigência de uma vida moral reta, o que exclui, p.ex., casais em segunda união do Banquete Eucarístico. Falar em “flexibilidade” daria, então, a entender que o Papa estaria “relaxando” a prática da Igreja e “liberando geral”, como há tantos que o desejam hoje em dia.

Não fui eu o único a pensar assim. A mesma notícia reproduzida em G1 (aliás, o título ficou muito estranho; “Papa explica como enfrentar sofrimento e sacramentos” passa a impressão de que os sacramentos estão sendo “enfrentados”, e não “explicados” como é o correto) apressou-se em declarar:

O porta-voz esclareceu que, sobre este tema, Bento XVI não fez referência à questão da comunhão para os divorciados, que, segundo as normas da Igreja, não podem recebê-la, pois são considerados pecadores.

À exceção da terminologia inadequada (não é porque “são considerados pecadores” simpliciter, e sim “porque o seu estado e condição de vida contradizem objectivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja que é significada e realizada na Eucaristia” – Sacramentum Caritatis 29), ao menos agiu com honestidade a agência de notícias e não procurou distorcer as palavras do Santo Padre.

Muito bonita e digna de destaque a resposta do Papa, quando foi questionado sobre o sofrimento:

Na segunda parte do pontificado, João Paulo II foi o testemunho verdadeiro de como carregar a cruz; neste mundo do activismo, do jovem e do belo, a mensagem do sofrimento e da paixão tem um valor particular. (…) A presença de Cristo no sofrimento é um ensinamento fundamental do cristianismo. Aceitar o sofrimento é uma dimensão da humanidade.
[Bento XVI]

Sim, o sofrimento é uma dimensão humana que foi glorificada na Cruz do Calvário! Por meio do sofrimento, é-nos possível assemelhar-nos ao Homem das Dores. Ah, consolo tão sublime e tão ignorado em nosso mundo hedonista!

Sugestão de leitura: Salvifici Doloris, de João Paulo II.