Bento XVI em Castel Gandolfo

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Alguns dos meus leitores devem ter visto a foto acima no blog do pe. Z. É sem dúvidas uma belíssima foto, mas (ao contrário do que possa ser levado a crer quem a veja sem maiores detalhes) não é assim tão recente. Nela, Bento XVI ainda era Papa. Segundo o Catholic Press Photo, ela foi tirada em julho de 2010. Ao que parece, a primeira imagem do bispo emérito de Roma ainda é aquela que o Fratres divulgou hoje. E nesta Bento XVI não parece tão radiante assim.

Rezemos por Bento XVI. Rezemos pelos cardeais reunidos em Roma para o conclave. Rezemos pelo próximo Papa. Rezemos pela Igreja de Deus.

Porque não usar a expressão “Papa Emérito”

Com a devida vênia, não gosto da expressão “Papa emérito” e imagino que não a devamos empregar para se referir a Bento XVI. Ao contrário, penso que “Bispo Emérito de Roma” é suficientemente descritivo e deve ser preferido àquela.

A razão é simples: “Papa Emérito” me parece uma imprecisão terminológica. O adjetivo “emérito” implica em conceder ao que o detém algumas características ou privilégios do substantivo ao qual ele se refere. Um “bispo emérito” continua sendo bispo, e aqui a expressão se justifica; um “Papa emérito” não é Papa sob nenhuma circunstância, e aqui chamá-lo assim induz ao erro.

Logo após a renúncia de Bento XVI ter sido anunciada, ZENIT publicou uma interessante reportagem do [padre?] Manuel Jesus Arroba, dizendo que um Papa Emérito não podia existir. A justificativa dada pelo professor de Direito Canônico da Lateranense é esta: «Juridicamente só existe um Papa. Um “papa emérito” não pode existir: o cargo ocupado por ele é supremo, ou seja o mais alto em responsabilidade». Poucos dias depois, o anúncio de que Bento XVI seria Papa Emérito pegou a todos de surpresa e – alguém poderia dizer – fez o professor da Lateranense morder a língua. Eu penso que não.

Porque o sentido em que se pode chamar Bento XVI de “Papa Emérito” é um sentido todo particular, sui generis, e justamente por isso eu penso que ele deveria ser evitado. Dizer “Emérito” a Sua Santidade é dizer, simplesmente, que ele fora Papa e agora já não é mais; ao contrário dos outros casos, aqui não cabe falar em nenhum privilégio próprio do ministério petrino que Bento XVI tenha mantido após renunciar. O Papado não é como o Sacramento da Ordem, que imprime caráter indelével na alma de quem o recebe: um bispo validamente ordenado nunca deixa de ser bispo, mas um Papa validamente eleito pode deixar de ser Papa caso renuncie. Os dois casos não são nem minimamente análogos e, portanto, chamar a um e a outro de “emérito” é insinuar um paralelismo totalmente descabido.

Parece que João Paulo II teria dito não haver “lugar na Igreja para um papa emérito”, e penso que ele tinha razão. Não sei quem determinou que Bento XVI fosse chamado de “Papa Emérito”; e quando a notícia saiu eu pensei simplesmente em ignorá-la. No entanto, tenho visto da semana passada pra cá muitos usos da expressão, o que – pelas razões que expus acima – pode confundir. Assim, convido a todos a usarem outra forma de se referir àquele que foi Papa e ainda está vivo: simplesmente “Bento XVI” ou mesmo “o bispo emérito de Roma, Bento XVI”. A expressão é um pouco mais longa, mas é mais rigorosa e mais precisa – e por isso vale a pena usá-la.

O trono está de novo vazio…

Chegou o dia terrível, chegou a hora ingrata. O Sólio Pontifício está vacante, a Cátedra de Pedro está desocupada, o Trono do Vigário de Cristo está vazio. Esta sedevacância é diferente das demais, pois irrompe na História com dia e hora marcados; mas nem por isso ela é menos triste, e nem por isso nós, católicos, deixamos de senti-la.

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O glorioso pontificado de Bento XVI está agora definitivamente encerrado. No meio da Quaresma de 2013, o Papa nos deixa. Diz ele que fica conosco, porque vai subir ao monte para rezar; mas o mesmo não se pode dizer dos outros pontífices que, colhidos pela Morte, foram instados a se apresentar diante de Deus e, de lá, passam a interceder pela Igreja que tiveram a honra e a responsabilidade de conduzir nesta terra? Diz Bento XVI que fica conosco, e é verdade; mas não estivemos sempre unidos a todos os Papas santos do passado por meio do Corpo Místico de Cristo, por meio daquela Comunhão sagrada à qual a morte não impõe limites e com a qual o tempo não faz fronteiras? E, mesmo assim, vestimo-nos de luto quando a Santa Sé está vacante! Também hoje, portanto, estamos enlutados, mesmo que Bento XVI ainda esteja neste mundo conosco. Também hoje nos constrange e machuca a imagem do Trono Vazio. Também hoje temos direito às lágrimas, à tristeza, a nos sentirmos órfãos.

É a primeira Sé Vacante do Deus lo Vult!, mas já é a segunda da minha relativamente curta vida. Dentro em breve, já poderei dizer que vivi sob três papas; e, ditas as coisas dessa maneira, parecem-me muitos. Seria naturalmente utópico imaginar que isso não fosse acontecer em breve: afinal, Bento XVI já vai completar 86 anos, e quando ele renunciou já era mais velho do que João Paulo II quando morreu. Mas uma coisa é o futuro antevisto e, outra, é a sua metamorfose em presente; uma flecha que nós conhecemos vem mais lenta, como Dante diz n’O Paraíso, e é verdade, mas nem por isso os ferimentos que ela provoca em nós são menos reais.

A Sé de Pedro está vazia, e agora precisamos suplicar ao Altíssimo que envie depressa um homem para ocupá-la. Que nos conceda o quanto antes um outro pastor. Que nos dê com presteza outro capitão para guiar a Nau da Igreja. Agora, mais do que nunca, precisamos rezar pelo conclave que se avizinha! Neste sentido, é extremamente louvável esta iniciativa de alguns amigos de criar um site para incentivar as orações pela escolha do próximo Papa, à qual eu remeto os meus leitores através deste link. Se a Quaresma já é em si mesma tempo especialíssimo de oração, os próximos dias nos obrigam a rezar de maneira redobrada. Os Príncipes da Igreja nos darão em breve um Rei. Que eles possam ser dóceis às inspirações do Espírito Santo, e que o próximo Papa tenha a força e a coragem necessárias para dar continuidade ao terrível combate que Bento XVI soube conduzir com tanta galhardia. Que, sob seu comando, a Igreja Militante possa se lançar com zelo e ferocidade sobre os inimigos de Deus, para a Sua maior glória e a salvação das almas. Que os Infernos tremam à vista da Esposa de Cristo resplandecente na figura de um Papa valoroso, seguido de perto pelos que somos servos e servas de Deus. Que Deus proteja a Sua Igreja. Que Ele nos conceda dias brilhantes logo à frente.

A poucas horas da Sé Vacante…

Faltam poucas horas para a Sé Vacante. Acompanhemos em oração estes últimos instantes do glorioso pontificado de Sua Santidade, o Papa Bento XVI; rezemos por ele e pelo conclave que se anuncia.

Enquanto isso, se quiserem uma amostra do que é jornalismo de verdade, cliquem na imagem abaixo para lerem o especial sobre Bento XVI que a Gazeta do Povo preparou. E quem puder adquirir a versão impressa do jornal, que o faça; soube que o caderno está muito bonito, verdadeiramente uma peça de colecionador.

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Por fim, não deixem de ler a coluna de hoje do Carlos Ramalhete no mesmo jornal, da qual extraio o seguinte trecho: «Compete ao papa confirmar que pão é pão e queijo é queijo. Que o caminho é o mesmo, ontem, hoje e sempre. Que a natureza humana não muda, mas cada um pode e deve se aperfeiçoar».

Até logo, Bento XVI. Muito obrigado!

O último ato público de Bento XVI

A Audiência começou por volta das 10h40 locais (6h40 de Brasília). Ao aparecer na praça de São Pedro no papamóvel, Bento XVI foi ovacionado por uma multidão que gritava “Viva o Papa” e “Bento! Bento!”. Claramente emocionado, passeou pela praça por quase 15 minutos, agradecendo aos fiéis que levantavam cartazes e o agradeciam. Foram distribuídos 50 mil ingressos para os peregrinos participarem da catequese, mas segundo as estimativas, o público presente era de mais de 150 mil pessoas.

Pe. Paulo Ricardo, “O Adeus de um Papa”

Hoje de manhã foi a última Audiência Geral do Papa Bento XVI. O texto encontra-se em italiano no site da Santa Sé; decepcionou-se quem esperava revelações bombásticas ou discursos apocalípticos na última aparição pública do Papa. Isso não é do feitio de Bento XVI, que parece cultivar o dom de dizer as coisas mais importantes do modo mais inesperado e discreto possível. Certamente ele não reservaria a sua última catequese para dar uma reviravolta em tudo o que aprendemos do dia de Nossa Senhora de Lourdes pra cá. Ao contrário: diante dos 150.000 fiéis que lotavam a Praça de São Pedro, o velho Pontífice impôs ao seu discurso um profundo tom de agradecimento.

Ao Todo-Poderoso, pela Sua presença constante: “hoje o meu coração está repleto de agradecimento a Deus, porque Ele não deixou nunca faltar à Igreja e também a mim a Sua consolação, a Sua luz e o Seu amor”. Pelo dom da Fé: “agradeçamos ao Senhor por isto todos os dias, com a oração e com uma vida cristã coerente”. A todos aqueles que, de todas as partes do mundo, têm nos últimos dias manifestado apoio e proximidade ao Santo Padre: “gostaria de agradecer do fundo do coração também àquelas numerosas pessoas em todo o mundo que, nas últimas semanas, enviaram-me sinais comoventes de atenção, de amizade e de oração”. E ainda: “agradeço a todos e a cada um também pelo respeito e compreensão com os quais acolheram esta decisão tão importante [da renúncia]”.

O tema da gratidão acompanhou-nos ao longo destes últimos dias, e nada foi capaz de nos apartar por completo dele: nem a surpresa, nem a incompreensão, nem o temor pelo futuro, nem nada. Era natural que ele impregnasse também os últimos discursos pontifícios, e acho importante – mais ainda, providencial – que as coisas tenham acontecido desta maneira. Nós, católicos, não estamos acostumados com este tipo de inovações; e a idéia de um papado com rígido prazo de validade era potencialmente capaz de modificar sensivelmente o ritmo do governo da Igreja de Cristo. Afinal de contas, sobre todos os Papas pesou aquela terrível incerteza que pesa sobre cada homem, aquela dúvida atroz de não saber o dia e a hora da própria morte e, portanto, de não saber até quando lhe será permitido empunhar o cetro pontifício. Bento XVI afastou de si esta angústia e assinalou ele próprio o ponto final do seu luminoso pontificado.

Poderia ter aproveitado a situação para agir nos seus últimos dias de modo diferente; poderia ter querido coroar o final do seu pontificado com aqueles arroubos de vontade que soem aparecer somente quando, nos umbrais do Fim, um homem percebe que nada mais importa e deseja gastar as suas últimas energias para agir sem prestar contas à prudência ou ao respeito humano que antes condicionavam suas atitudes. Mas o Papa não fez nada disso. Agiu como aquela anedota sobre São Domingos Sávio que, perguntado sobre o que faria se aquele fosse o último dia da sua vida, respondeu simplesmente que continuaria jogando bola como estava fazendo.

Quantos monarcas não agiriam diferente se pudessem saber com certeza quando seria o fim dos seus reinados? Bento XVI soube e não mudou nada. Em uma conversa (acho que com o Peter Seewald) que foi tornada pública estes dias, o Papa confidenciou que, na opinião dele, bastava o que ele fizera pela Igreja até então. O que, na verdade, nos leva a uma outra constatação: para Bento XVI, o seu pontificado terminou no instante em que ele se convenceu de que Deus o chamava a renunciar. Ele não tentou barganhar com o Altíssimo e nem levar um ritmo frenético para aproveitar ao máximo os últimos instantes do seu pontificado: antes, abandonou tudo e depôs a tiara papal como se houvesse sido colhido abruptamente pela morte. Até mesmo a sua última encíclica deixou inconclusa, como se fatores adversos e inesperados o houvessem forçado a suspender a pena no meio da frase. Na forma como conduziu a própria renúncia, o Papa testemunha que não almeja ter controle sobre a própria vida mas que, ao contrário, tudo abandona nas mãos de Deus.

Amanhã começa a Sé Vacante, às 20h00 em Roma, 16h00 no Brasil. Bento XVI vai subir o monte para rezar; e junto a ele, os católicos do mundo inteiro iremos suplicar ao Senhor da Messe que nos envie um Papa santo, um General valoroso para nos conduzir, um Sucessor de Pedro para guiar a Sua Igreja. Vai em paz, Bento XVI – muito obrigado! E que o Espírito Santo Paráclito possa iluminar os corações dos cardeais que, reunidos no conclave, terão a difícil missão de apontar um sucessor para o primeiro Papa a renunciar em 600 anos.

Pe. Anderson Alves sobre Bento XVI

Nestes últimos dias do pontificado de Bento XVI, o pe. Anderson Alves tem nos brindado com alguns belos textos sobre o Santo Padre.

– O último encontro com um sábio humilde, em Zenit. «Eram impressionantes as palavras de fé do Papa que dizia que devemos evitar tanto o falso pessimismo, o pensar que tudo vai mal e que a Igreja é uma árvore que está morrendo; quanto o falso otimismo, daqueles que vêm os Seminários, conventos e igrejas fechando e dizem que tudo vai bem. Em vez disso, os cristãos devem ser realistas e estar certos de que o futuro é nosso, é de Deus, e que a árvore da Igreja cresce sempre de novo, pois ela sempre se renova; por isso devemos servi-la com a consciência de que ela é de Deus, que a mantém e governa; os sacerdotes devem dizer simplesmente: “somos servos inúteis; fizemos o devíamos fazer” (Lc. 17, 10)».

– João Paulo II e Bento XVI: a via da expiação e da oração, no Presbíteros. «E não devemos ser enganados por falsos profetas do mundo atual. Aqueles que agora criticam o Papa Bento XVI, por ser ancião e ter renunciado são os mesmos que criticaram João Paulo II por ser ancião e não ter renunciado. Os que se esquecem de Deus, estão sempre preparados para apedrejar ao seu próximo, mesmo com acusações contraditórias contra quem não cometeu nenhum pecado. Na história da Igreja há Papas santos que não renunciaram ao seu ministério e também um Papa santo (Celestino V) que renunciou ao mesmo».

Curtas: Tragédia em Santa Maria e Renúncia do Papa

Dois pra lá e dois pra cá.

Tragédia em Santa Maria I, D. Fernando Rifan: «Comovidos e chocados, choramos os jovens da boate de Santa Maria, rezamos por eles e lamentamos as graves negligências que causaram o desastre. Mas cabe uma reflexão de caráter geral: nos noticiários após a tragédia, pôde-se conhecer a imensa quantidade de boates ou casas noturnas que pululam nas cidades e como milhares de jovens as frequentam. E, segundo o testemunho deles, tomam bebidas alcoólicas antes, durante e depois das baladas, sem falar em outras drogas que aparecem nesses ambientes. Assim fica muito difícil ter bons reflexos em situações de perigo. Sexo, bebidas, drogas etc.: é só assim que se divertem nossos jovens? É dessa maneira que teremos uma juventude responsável, sadia, honesta e feliz, da qual virá o futuro? É só no pecado que conseguem se alegrar?»

Tragédia em Santa Maria II, pe. Anderson Alves: «Mais esse tipo de perguntas mostra algo mais sério: uma espécie de ateísmo prático que toma conta do modo de pensar e de agir de uma parte da nossa população. Esse tipo de ateísmo superficial e emotivo consiste em viver como se Deus não existisse e, quando ocorre alguma tragédia, joga-se a culpa toda em Deus, para assim minimizar as responsabilidades dos verdadeiros culpados. E quem o faz, nem se dá ao trabalho de se perguntar como é possível que um Deus que não existe, seja o responsável por todas as tragédias humanas. Prefere-se crer num ateísmo prático e aparentemente cômodo no qual se procura viver em total autonomia de Deus, da verdade e da moralidade e se espera que, nas situações de risco, Deus abra milagrosamente uma “saída de emergência” para livrar ao homem de qualquer perigo.»

Renúncia do Papa IProf. Hermes Rodrigues Nery: «E a Igreja tornou-se “perita em humanidade” justamente porque tem paciência. Afinal, já são vinte séculos de percurso. E toda vez que ela foi fiel à Tradição (aos preceitos da Sagrada Aliança), a sua história foi exuberante. (…) Assim como Jesus deu o exemplo, a Igreja ergueu a humanidade a níveis elevados de civilização quando soube ser força de resistência e levantar o olhar para a destinação última do homem: estar ou não com Deus.»

Renúncia do Papa II, D. Fernando Rifan: «Ao lado do heroísmo do Beato João Paulo II de levar o sofrimento pessoal até o fim, temos o grande heroísmo de Bento XVI de renunciar por amor à Igreja, para evitar qualquer sofrimento para ela. No começo da Igreja, no tempo das perseguições, houve cristãos que resolveram ficar onde estavam e enfrentar o martírio. Exemplo de fortaleza. Houve outros cristãos, que temendo a perseguição e a própria perseverança, acharam melhor fugir da perseguição e se refugiar no deserto, para rezar e fazer penitência, longe do mundo. Exemplo de humildade. Houve santos de ambas as posturas, os que enfrentaram e os que se retiraram. Heroísmo de fortaleza e heroísmo de humildade, frutos da Fé. A Igreja é feita de heróis da Fé!»

Não, Bento XVI não fracassou como papa

Um pouco instigado pela curiosa peculiaridade intelectual de um comentarista do blog que conseguiu a proeza de recomendar um texto de um autor que acabara de desqualificar, peço licença aos meus leitores para voltar um pouco ao Pondé. Um outro leitor, por email, já me solicitara algumas considerações sobre o mesmo texto; de modo que, tecendo-as agora, procuro atender a ambos.

O texto em questão, que se pretende uma “Análise” do atual pontificado, defende a tese de que Joseph Ratzinger «é brilhante como teólogo, mas fracassou como papa». A análise é terrivelmente injusta e já o digo o porquê; antes, porém, duas palavras sobre o articulista. Não concordo que o Pondé seja simplesmente “do contra”, como foi comentado aqui; parece-me, isto sim, que os seus textos são via de regra pessimistas. Isto não é de per si um demérito; apenas exige um pouco de contraponto, a fim de que a compreensão da realidade não fique prejudicada pelo único viés negativo a partir do qual o colunista costuma escrever os seus textos. Ainda: ser pessimista não implica em ser superficial. Ser levianamente “do contra” é uma invectiva que de modo algum merecem os textos do Pondé, ao menos não os que eu já li e comentei aqui.

Sem mais delongas, ao texto. Não posso concordar mais com o articulista quando ele fala que «Bento 16 foi um duro crítico da ideia de que a igreja deva aceitar soluções modernas para problemas modernos»; ao mesmo tempo, contudo, quando ele fala que «[s]ua ideia de igreja é a de um pequeno grupo coeso de crentes, fiéis ao magistério da igreja (conjunto de normas para condução moral da vida), distante das “modas moderninhas”», não posso discordar mais dele.

Por diversas razões. Primeiro porque o Papa não tem nenhuma “idéia” eclesiológica diferente das diversas definições de “Igreja” que o Magistério multissecular legou à humanidade – e, portanto, em se tratando do Papa Bento XVI, falar em “idéia de Igreja” é até incorreto.

Segundo, porque a referência ao “pequeno grupo coeso de crentes” é recorrente em Ratzinger e não tem, absolutamente, o sentido que Pondé lha dá. Ela aparece, p.ex., n’O Sal da Terra e em Dios y El Mundo (excerto aqui, pág. 43), sempre contraposta à noção de “Igreja de massas” e sempre como constatação do fenômeno moderno da diminuição do número de cristãos no mundo – nunca como um ideal a ser buscado ou um “modelo” de Igreja a ser perseguido.

Terceiro, porque a fidelidade ao Magistério é conditio sine qua non para se pertencer à Igreja, quer se esteja falando de Igreja de massas, quer de minorias. Isto não é uma “visão” ou uma “idéia” exclusiva do Papa Bento XVI, é uma decorrência necessária do significado de “Igreja” dentro do Catolicismo. Não existe e nem pode existir Igreja de outra maneira.

Quarto, porque o Magistério não se refere somente à forma como se deve agir (= “conjunto de normas para condução moral da vida”), mas também e principalmente àquilo em que se deve crer. Sem fazer referência sequer remota à Fé, o articulista induz o leitor a cair na velha dicotomia entre ortodoxia e ortopráxis – ironicamente, tendo sido esta última condenada pelo próprio Cardeal Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, na sua famosa Instrução sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação.

Por fim, quinto, porque o “distante das modas moderninhas” que o Pondé emprega para dizer como os cristãos (na alegada visão do Papa!) deveriam agir passa uma forte impressão de sectarismo ou de fuga do mundo, e nada pode ser mais contrário ao Catolicismo do que isso. Os fiéis, embora obviamente devam evitar as más práticas do mundo (do moderno, do renascentista ou do medieval, tanto faz), devem ser para este o fermento que leveda a massa e não têm o direito de se furtar a esta missão. É isso o que diz o Cardeal Ratzinger no Dios y El Mundo citado, falando exatamente sobre a igreja “pequena”:

A Igreja não pode ser um grupo fechado, auto-suficiente. Devemos, sobretudo, ser missionários, no sentido de voltar a propor à sociedade aqueles valores que são os fundamentos da forma legal que a sociedade deu a si mesma, e que estão na base da própria possibilidade de construir qualquer comunidade social verdadeiramente humana. A Igreja continuará a propor os grandes valores humanos universais.

Isto, sim, é o que pensa o Papa Bento XVI – não o que o Pondé resumiu em três linhas que, lidas em si mesmas, chegam às raias da falsificação do pensamento alheio. E, compreendidas as coisas da forma como o Papa as compreende, desaparece o modelo de Igreja fadado ao fracasso ao qual a análise da Folha induzia o leitor desatento. Porque o Papa, diferentemente do Pondé, exala em tudo o que diz o doce e revigorante odor do otimismo cristão.

Sobre a dificuldade do Papa em fazer a Doutrina Católica chegar límpida e pura aos fiéis católicos, o colunista da Folha acerta em cheio ao culpar o “fogo amigo” dos sacerdotes – padres e bispos, em geral. Está certíssimo: a Igreja está repleta de sabotadores internos, que dedicaram os últimos anos a dificultar enormemente o trabalho do Papa Bento XVI. Ao contrário do que insinua o Pondé, no entanto, os fiéis não têm papel significativo neste processo diabólico de boicote doutrinário. Embora eles sejam em sua maioria de «países pobres», disto não segue que estejam «mais próximos de um discurso contaminado pelas teorias políticas de esquerda» – a menos, é claro, que não se esteja falando de uma predisposição sócio-cultural, e sim da mera proximidade dos líderes demagogos de plantão.

O que uma análise mais acurada dos fatos nos mostra é que o êxodo católico no Terceiro Mundo é diretamente proporcional à cantilena marxistóide que substituiu o gregoriano nas nossas igrejas. Os católicos militantes – mesmo aqueles de “países pobres”, e talvez até principalmente estes de países pobres – não suportam o Evangelho falsificado que sói ser hoje em dia pregado nos nossos púlpitos. Nada mudou nesta Terra de Santa Cruz: hoje, como à época do pe. António Vieira, é por culpa dos pregadores que a palavra de Deus não dá fruto nem mesmo nesta abençoada terra em que se plantando tudo dá.

Por fim, sobre os seminários, o Pondé tem toda razão em denunciar o estado lastimável em que eles se encontram, mas comete um enorme erro de perspectiva ao omitir o fato de que, com toda a desgraça, nós estamos hoje incomparavelmente melhores do que há vinte ou trinta anos. Trata-se, mais uma vez, do idiossincrático pessimismo do autor, que o impede de ver os inegáveis avanços concretos que obtivemos nesta questão da educação católica.

É somente este pessimismo, aliás, que o leva a sentenciar que «o papado de Bento 16 fracassou». Ora, mesmo sem considerar as coisas abertamente históricas que ocorreram neste pontificado – a liberação da Missa Tridentina, o levantamento das excomunhões dos bispos da FSSPX, o Ordinariato erigido para os anglicanos -, é forçoso reconhecer que Bento XVI obteve silenciosos sucessos administrativos cuja contribuição para a Igreja será fundamental nos próximos anos: coisas como a demissão de dezenas de bispos, o enfrentamento da pedofilia, a reorganização da Caritas Internationalis, as leis sobre transparência financeira, a transferência dos seminários para a jurisdição da Congregação para o Clero, etc. Como se pode ver, trata-se de um pontificado extraordinariamente profícuo! Sob que ótica é possível dizer que ele “fracassou”? Queríamos, porventura, que todos os chefes de Estado do mundo fossem em romaria ao Vaticano para, de joelhos, jurar vassalagem ao Vigário de Cristo da Terra? Esperar mais do que efetivamente foi feito por Bento XVI não seria um idealismo utópico demais, totalmente irreal dentro das atuais conjunturas?

A provocação final do Pondé é deliciosa, quando ele se refere à Igreja como quem pensa que a vida é «mais do que conforto, prazer e liberdade pra transar com quem quisermos e quando quisermos». Mas a imagem da «Igreja [que] agoniza diante de um mundo que cada vez [Lhe] é mais opaco» é de uma retórica apocalíptica caricata extremamente dispensável. No final das contas, descontados os exageros do texto, é-nos possível vislumbrar um quadro muito mais promissor e reconfortante do que aquele que o Pondé nos pintou originalmente. Oxalá o professor de Filosofia possa perceber a seletividade da sua análise e chegar a uma visão mais equilibrada – e justa! – do que realmente significou, para a Igreja e para o mundo, este pontificado de Bento XVI.

Dois textos de não-católicos sobre a renúncia do Papa

Para mostrar que é possível não ter Fé e, mesmo assim, escrever sobre a renúncia do Papa com erudição e compostura, sem cair na mediocridade anti-clerical dominante dos nossos dias. O Pondé é de origem judaica e eu não sei se segue algum culto específico; o Jacques Le Goff, eminente medievalista francês, é agnóstico.

– Vale a pena ler o Pondé. Dê-se-lhe um desconto, que ele não é católico; releve-se-lhe a irreverência, que aliás já esteve muito pior. Retenha-se somente o que é bom: particularmente, a insuspeita admiração elogiosa dirigida à Igreja como um todo e, em específico, ao Papa Bento XVI. Excerto:

Estudei anos num colégio jesuíta. Graças aos padres aprendi a coragem intelectual, o gosto pelas letras, o valor da liberdade religiosa, o esforço de pensar de modo claro e distinto, o respeito pelas meninas, ao mesmo tempo em que crescíamos num ambiente no qual Eros nunca foi demonizado; enfim, só tenho coisas boas para dizer sobre meus anos de escola jesuíta.

Cresci numa escola na qual, durante a semana, discutíamos como um “mundo mau” pode ter sido criado por um Deus bom. No final de semana, íamos à praia todos juntos, dormíamos lá, meninos e meninas, em paz, namorando, e enchíamos a cara. Noutro final de semana, o mesmo grupo ia a favelas ajudar doentes.

Tive, numa pequena amostra, uma prova do enorme papel civilizador da igreja e do cristianismo como um todo no mundo.

– Vale também muito a pena ler Le Goff (encontrei via O Camponês). Remeto à íntegra da entrevista (que aliás é pequena), sem comentar nada. Apenas cito:

Pessoalmente, [o trono vazio] não é uma imagem que me toca muito, mas é importante para uma religião: ela mostra que, mesmo que a religião não tenha uma cabeça humana para mostrar, há sempre o trono que simboliza a existência de um rei no céu, Deus. Consequentemente, o trono vazio é o símbolo da continuidade. Ele é um dos atout do cristianismo, que sempre evitou as rupturas e para o qual a única ruptura foi a encarnação de Jesus. Pode haver crises, reviravoltas, catástrofes, mas o trono de Deus está sempre lá. Essa eterna associação entre a mudança e a continuidade, encarnada pelo trono vazio, é uma das virtudes do cristianismo.