Mais um bispo de Olinda no Tribunal?

Assim, quando D. Vital chegou ao Recife, já encontrou em atividade os jornais maçons que todos os dias procuravam atingi-lo com sarcasmos e injúrias.

[…]

D. Vital procurou obter com amigos comuns que elas, as Irmandades, se submetessem à sua autoridade. Não conseguiu nada. Resolveu então mandar um primeiro aviso canônico aos vigários assistentes das irmandades para que exortassem os irmãos maçons a renunciarem à maçonaria ou se demitirem. As irmandades recusaram aceitar isso. Mais dois avisos se seguem e são recusados. O bispo lança então um interdito sobre as irmandades Santo Antônio e Espírito Santo, impedindo a realização de missas ou quaisquer religiosos nas suas capelas.

[…]

O próprio Governo, isto é, certamente o seu Chefe, Visconde do Rio Branco, e seus ajudantes maçons, mandaram dizer às irmandades que deviam apelar para o Governo Central com um, então vigente, “recurso à Coroa”, apesar de a lei brasileira de então dizer que em causas estritamente religiosas os bispos estavam submetidos ao Papa e só ao Papa podiam ser apresentados recursos contra sua decisões.

[…]

Diante do “recurso à Coroa” da Irmandade, o Governo mandou a D. Vital um aviso com ordem de levantar o interdito sob pena de ser processado.

[“Dom Vital e a Maçonaria”, in PERMANENCIA]

Recusei dar cumprimento à decisão do Governo Imperial, porque de modo algum mo permitia a minha consciência de Bispo Católico.
[Dom Vital, in O Bispo de Olinda no Tribunal do Bom Senso]

Não pude deixar de me lembrar desta história, ao ler no blog do Maierovitch que a mãe da menina de Alagoinha que autorizou o aborto dos netos e os “médicos” que o executaram podem pedir indenizações da Igreja por causa da excomunhão na qual incorreram com a morte dos dois irmãos gêmeos. Mas, como assim? O que a Justiça Civil tem a ver com o Direito Canônico? Desde quando as Leis do Estado podem intervir desta maneira nas Leis da Igreja? A mera insinuação de uma tal possibilidade chega às raias do surreal, e nos traz à lembrança – como evitar? – as desgraças que historicamente ocorreram sempre que o Estado quis extrapolar as suas atribuições e legislar matéria religiosa no lugar da Igreja.

Nunca é demais repetir que a excomunhão é uma pena canônica da Igreja, que não tem efeito algum na esfera civil; a Igreja é uma sociedade perfeita que tem verdadeira potestade de Governo sobre os Seus súditos, e exerce esta autoridade independente do Estado e sem que as distintas esferas – secular e religiosa – se misturem. Na situação atual, chega a ser irônico que os mesmos a proibirem a legítima liberdade de expressão dos católicos sobre os assuntos morais discutidos na sociedade civil sejam tão céleres em buscar ensinar à Igreja como deve ser o Seu governo interno – e até mesmo em invocar o Direito Secular como árbitro do Direito Eclesiástico. Diz o senhor Maierovitch:

Não podia, como acontecia nos tempos de Giordano Bruno, sair o arcebispo  a dar publicidade com o objetivo de condenar moralmente. Num estado laico, isso pode ser considerado ofensivo à imagem e bom nome de um cidadão. E danos à imagem são ressarcíveis pecuniariamente, na Justiça do estado laico.

Resta saber por que motivo misterioso seria laicamente “ofensivo à imagem e bom nome de um cidadão” uma excomunhão na qual ele de fato incorreu. Veja-se a “lógica” por detrás destas afirmações: é ofensivo ao cidadão ser excomungado. Incorre-se em excomunhões quando se cometem alguns crimes tipificados no Direito Canônico. A Igreja é obrigada a indenizar o excomungado, uma vez que ele é ofendido pela excomunhão. Ou seja: cada vez que um católico comete um delito canônico, a Igreja está obrigada a indenizá-lo! É como se, a cada justa condenação judicial, o Estado fosse obrigado a indenizar o condenado pela ofensa que a própria condenação acarreta ao seu bom nome. Uma completa e absurda inversão da lógica mais elementar. É espantoso que alguém venha a público defender uma sandice dessas.

E o blogueiro não é o único a defender este despautério; também um promotor afirmou que a excomunhão – pasmem! – poderia ser contestada na Justiça! Tal insistência em submeter a Igreja ao Estado e fazer com que as suas penas canônicas dependam da legislação civil é absurdamente injustificável. Mais uma vez – tenha Deus misericórdia! – o Estado procura se arvorar em juiz da Igreja; no que depender de alguns, mais uma vez teremos um bispo de Olinda no Tribunal do Estado.

Insistindo sobre o aborto e a excomunhão

Eu corro o risco de ser maçante e repetitivo; mas, enquanto não cessar a onda de ataques à Igreja Católica na figura do Arcebispo de Olinda e Recife, eu não posso me dar ao luxo de parar de falar sobre o assunto. Há coisas novas a serem divulgadas e coisas velhas a serem repetidas. Paciência. Vamos lá.

Para quem ainda não recebeu por email, a carta do pe. Lodi de apoio a Dom José Cardoso Sobrinho é primorosa e merece uma leitura. Está publicada na íntegra no Palavras Apenas (entre outros lugares), razão pela qual me escuso de reproduzí-la também aqui, limitando-me a fornecer o link. Também o Pedro Ravazzano publicou um excelente texto de sua lavra no seu blog, cuja leitura também recomendo, e do qual me permito citar um parágrafo, pois ele rebate uma das maiores mentiras sobre o assunto que estão sendo repetidas ad nauseam (a de que a menina ia morrer – assim, mesmo, dito como se fosse uma certeza dogmática – caso a gravidez fosse levada adiante):

O mundo já presenciou casos de gravidez onde a medicina foi de crucial importância para o nascimento dos filhos. No Peru houve Lina Medina, mãe com apenas cinco anos. Nos Estados Unidos todo mundo acompanhou a orgulhosa matriarca que teve oito filhos. Outra peruana, com nove anos de idade, deu à luz a uma criança prematura que após o parto foi imediatamente tratada pelos médicos. Aqui mesmo no Brasil uma garotinha da mesma idade pariu em no meio da Amazônia. Ou seja, a medicina tem plena capacidade e tecnologia para acompanhar uma criança grávida de gêmeos e fazer com que tenha seus filhos com saúde e sem risco imediato de vida.

Sobre o mesmo assunto (da morte certa e inevitável da garota caso o aborto não fosse prontamente realizado), vale a pena (re)ler o parecer da dra. Elizabeth Kipman, bem como esta carta a uns professores da UFPE, escrita por um amigo, da qual eu já citei um trecho aqui e, agora, destaco:

Até que alguém me prove o contrário, a gravidez da menina era cientificamente viável. Todos nós sabemos que a medicina é imprevisível, e é assim como devemos encará-la. E na minha opinião, a conduta correta deveria ser esperar a evolução do caso, acompanhar de forma contínua a gravidez, e induzir o parto se necessário, sempre procurando SALVAR VIDAS, que é a verdadeira atribuição da medicina.

Agora, o blá-blá-blá anti-clerical. O Diário de Pernambuco trouxe uma reportagem sobre as feministas contrárias à posição da Igreja; os motivos alegados não têm nada a ver com nada. Dizem estas senhoras que “o tipo de aborto feito na menina foi legal e está previsto em lei”, quando isso (além de ser falso) não está, absolutamente, em discussão. Os “médicos” que realizam abortos (p. ex.) nos Estados Unidos, ainda que o procedimento seja 100% legal, incorrem em excomunhão latae sententiae do mesmo jeito, porque o assassinato não deixa de ser assassinato só porque tem amparo legal (como, por exemplo, as Leis de Nuremberg não faziam com que o anti-semitismo fosse justo). Dizer o contrário disso é cair em um positivismo relativista, que só pode conduzir à barbárie.

Registro, outrossim, que as feministas estão se aproveitando do caso para fazer propaganda a favor do aborto livre no Brasil em qualquer caso: “o fato poderia ter tido um final diferente se o Estado brasileiro reconhecesse e legalizasse o aborto”.

O que a legalização do aborto tem a ver com a excomunhão da Igreja? Absolutamente nada. Portanto, se o aborto fosse legalizado – nunca é demais repetir -, os médicos que o realizaram estariam excomungados do mesmíssimo jeito (aliás, não dizem as feministas que este tipo de aborto já é legal?). O protesto das feministas só faz sentido se se estiver desejando a implantação do aborto livre no país – o que é exatamente o que elas desejam.

O site do Jornal Nacional tem uma enquete nonsense sobre o assunto, na página principal, perguntando: “O que você achou da decisão do arcebispo de Olinda e Recife, que excomungou os envolvidos no aborto sofrido por uma menina de 9 anos, que engravidou de gêmeos após ser violentada pelo padrasto?”. Os resultados atuais estão aqui. A pergunta é duplamente errônea, primeiro porque não houve “decisão” do Arcebispo de “excomungar” ninguém (dado que a pena de excomunhão para quem pratica aborto, como já cansamos de repetir, é automática) e, segundo, porque o que as pessoas “acham” ou deixam de achar sobre o assunto não tem nenhuma relevância, posto que se trata de um assunto interno da Igreja – a opção que diz “[e]rrada, pois a lei permite aborto em casos de estupro” é um completo disparate.

Por fim, o ministro do Supremo Marco Mello – tinha que ser ele – disse que o STF não tinha medo da excomunhão da Igreja. Aviso ao senhor ministro que a excomunhão automática se dá para quem pratica aborto, ocorrendo “seguindo-se o efeito”; por conseguinte, a questão não é análoga à ocorrida em Recife. Caberia, na minha opinião e salvo melhor juízo, aos ministros votantes a favor do aborto, uma excomunhão ferendae sententiae, isto é, imposta pela autoridade competente (que seria, de novo s.m.j., o(s) bispo(s) da(s) diocese(s) à(s) qual(is) pertence(m) cada um dos ministros), e não automática como a dos médicos de Recife.

Abre a boca ainda o senhor ministro para dizer que “[a] lei maior é a lei posta pelos homens e é a que norteia o julgamento dos processos”; ora, a proscrição da Lei Natural e a adoção do positivismo bruto está longe de ser uma princípio evidente. Isso não faz parte do Estado Laico: isso é uma ideologia professada por militantes anti-religiosos, e que é criminosa por ser profundamente injusta, já que instaura uma “lei do mais forte” onde o certo e o errado depende de quem está no poder. Bem disse o Yves Gandra Martins que, no Brasil, quem crê em Deus é um cidadão de segunda categoria

Ainda a repercussão sobre o aborto em Recife

– A polêmica sobre o aborto realizado na menina de nove anos ganhou primeira capa no Jornal do Commercio duas vezes: ontem, “Ciência X Fé: Excomunhão em debate” e, hoje, “Aborto é pior que estupro, diz Dom José”.

– Quanto à manchete de ontem, nem cabe fazer comentários, porque é evidente que, sobre a excomunhão, não pode haver entre a “Ciência” e a “Fé” debate algum, dado que “excomunhão” é um conceito ininteligível para a ciência, sobre o qual ela não tem absolutamente nada a dizer.

– Quanto à matéria de hoje, vale salientar: sim, por mais que seja chocante para a mentalidade moderna, o aborto é mais grave do que o estupro, porque neste há uma violência física e, naquele, uma violência física que implica na morte de um ser humano inocente e indefeso. A vida é o maior de todos os bens e, portanto, aquilo que atente contra ela é mais grave. Por exemplo, assassinar uma pessoa é mais grave do que torturá-la ou estuprá-la, e com isso se está simplesmente reconhecendo que a vida em si é um bem mais valioso do que a integridade física, dado que esta pressupõe aquela. Colocados os preconceitos e as paixões de lado, qualquer pessoa é capaz de entender isso.

– Nunca é demais repetir: dizer que o aborto é mais grave do que o estupro não tem absolutamente nada a ver com negar ou relativizar a gravidade do estupro. Claro que o estupro é grave. A única coisa que se está dizendo é que o assassinato de um inocente indefeso é mais grave. Analogamente, se alguém dissesse que um latrocínio é mais grave do que um assalto a um banco, ninguém poderia honestamente deduzir daí que se esteja afirmando não haver problemas com assaltos a bancos.

– Dom José disse que o senhor presidente deveria procurar a assessoria de um teólogo antes de proferir sentenças disparatadas sobre temas que ele manifestamente ignora. É um excelente conselho, que o presidente deveria seguir, para não passar (ainda mais) vergonha em público.

– A CNBB publicou duas notas sobre o assunto (uma dos bispos da Regional Nordeste 2 e outra da CNBB como um todo). Têm o mérito de afirmarem claramente (ao menos!) que a Conferência é contrária ao aborto; faltou, contudo, na minha opinião, pelo menos duas coisas fundamentais: (a) um apoio explícito a Dom José Cardoso (que está sendo crucificado pela mídia); e (b) corroborar a sua declaração, dizendo que, sim, todos os envolvidos no crime incorreram em excomunhão latae sententiae.

– As Abortistas pelo Direito de Matar, como não poderia deixar de ser, manifestaram-se contra a Igreja e favoráveis aos médicos assassinos. A declaração delas foi muito bem comentada pelo blog “A Saúde da Alma”. Quanto a estas desgraçadas, nunca é demais repetir que, de católicas, só têm o nome, ostentado com o único intuito de enganar os incautos e semear a confusão dentro da Igreja de Deus.

– O Carlos Cardoso possui um anti-clericalismo que chega a ser nauseabundo, mas neste post é preciso louvar a sua honestidade. A despeito de não concordar com a posição do Arcebispo, ele diz claramente que Dom José só fez agir em coerência com o que a Igreja ensina. E diz ainda ser necessário “admitir publicamente que o problema não é o homem, o problema são os PRINCÍPIOS defendidos pela Igreja Católica: Esses sim desumanos, medievais, bárbaros, sem-sentido e indignos de qualquer um que se diga civilizado”. Obviamente não concordamos com esta sandice; mas louvamos, sim, a coerência e o bom caráter de quem apresenta as coisas das quais discorda como elas são na realidade.

– No Rio Grande do Sul está em curso um caso parecido com o da menina do interior de Pernambuco; ela tem 11 anos e também foi estuprada pelo padrasto. No entanto, não abortou, dado que os familiares da criança, ao que parecem, nem sequer cogitaram a possibilidade do assassinato. Sem disfarçar o próprio incômodo com o fato da família da garota ter decidido levar a gravidez adiante, o responsável por esta matéria do jornal O Globo chega ao cúmulo de sugerir que, mesmo à revelia dos pais, “o Ministério Público tem legitimidade para assegurar o direito da menina ao aborto” (!!). Ou seja, o famigerado “direito de escolha” foi para o beleléu: o que eles querem é matar o filho da menina a todo custo, mesmo que, para isso, precisem passar por cima da vontade da família (que é chamada de “inércia dos representantes legais” aqui)! A cretinice dos abortistas dá nojo.

Carta aberta – apoio a Dom José

Sua Excelência Reverendíssima,
Dom José Cardoso Sobrinho,
Arcebispo Metropolitano de Olinda e Recife,

Faço questão de divulgar, e com muito orgulho, a presente carta aberta de apoio a Vossa Excelência Reverendíssima. Faço questão de juntar a minha voz à voz de outros tantos católicos que escreveram em solidariedade a V.E.R. (como a carta escrita por uma católica do Rio de Janeiro e publicada hoje no Veritatis Splendor, que subscrevo integralmente), desejando também eu manifestar publicamente o meu mais sincero apoio a Vossa Excelência, Dom José, que é vítima injustiçada de terrível perseguição realizada pela mídia, pelo único fato de ter sido Vossa Excelência fiel ao mandato que recebeu de pastorear as ovelhas do Senhor.

Multiplicam-se acusações infundadas. Fala-se que V.E.R. excomungou a criança, que não teve pena da menina estuprada, que desejava a sua morte, que era indiferente ao sofrimento da família, que estava acobertando o estuprador, etc, etc, etc. Tudo falso; a única coisa que fez Vossa Excelência Reverendíssima – e fez muito bem – foi levantar a voz em defesa das duas crianças, dos dois irmãos gêmeos, que foram covardemente assassinados por culpa de um crime que não cometeram. A única coisa que Vossa Excelência fez foi chamar a atenção para a gravidade deste crime horrendo – que clama aos Céus vingança! -, quando ninguém lhe prestava atenção. A única coisa feita por Vossa Excelência foi comunicar a todo mundo que a pena prevista pelo Direito Canônico – que, aliás, independe completamente da vontade de Dom José ou de qualquer outro bispo – para os que cometem o crime bárbaro do aborto é a excomunhão. O inferno, por causa disso, urra de raiva.

Nós, no entanto, só podemos agradecer. Obrigado, Dom José, pelo Arcebispo fiel que V.E.R. é, como poucos existem hoje em dia. Obrigado, Dom José, por V.E.R. ter se pronunciado claramente contra o crime horrendo que foi praticado no solo de Recife, sob o olhar complacente da mídia, contando até mesmo com o apoio e incentivo de criminosos contra os quais a voz de Vossa Excelência foi a única a ser levantada. Obrigado, Dom José, pela radical fidelidade à Igreja de Nosso Senhor, expressa – uma vez mais – no desapego de si próprio e na aceitação voluntária da perseguição, tudo isso para não se calar diante de uma flagrante injustiça. Obrigado, Dom José, porque nós nos sentimos seguros sob o báculo de V.E.R., com a certeza de que temos a nos guiar um pastor fiel, verdadeiramente compromissado com a Igreja de Cristo e com um santo zelo pelas coisas divinas. Obrigado, Dom José; enquanto o inferno ruge, os Céus estão em festa com a atitude heróica de V.E.R., que não pode, do povo católico fiel, receber senão apoio e admiração.

Obrigado, Dom José Cardoso; Vossa Excelência conta com a nossa mais completa solidariedade, e estamos sinceramente dispostos a sofrer o que quer que seja necessário para a defesa de V.E.R., só pela – imerecida! – honra de sermos contados entre aqueles que padecem sofrimentos pela radical e intransigente defesa dos ensinamentos de Nosso Senhor. Alegramo-nos com Vossa Excelência pelas tribulações atravessadas por V.E.R.; exultamos, porque sabemos que a justa recompensa de Vossa Excelência será grande nos Céus. O Justo Juiz tudo vê; e Sua Mãe Santíssima, Maria, Mãe da Igreja, saberá recompensar àqueles que são servos fiéis do Seu Divino Filho.

Com a minha mais sincera admiração,
subscrevo-me, em Cristo,
Jorge Ferraz
Católico, Arquidiocese de Olinda e Recife

P.S.: também subscrevem estas linhas:

João de Barros – Belo Horizonte/MG
Claudemir Pacheco – Recife/PE
Leonardo Silvestre – São João Del Rei/MG
Rodrigo Pedroso – São Paulo/SP

Ainda sobre o aborto e a excomunhão

Alguns ligeiros esclarecimentos e comentários sobre o triste desfecho do caso das duas crianças que foram brutalmente assassinadas em Recife sob o beneplácito e – não raro – até mesmo apoio da opinião pública se fazem necessários, graças à enxurrada de “opiniões” desinformativas que estão circulando por aí, às quais é necessário contrapôr a verdade dos fatos.

Excomunhão é uma pena canônica da Igreja Católica que a Ela interessa e a mais ninguém; tem efeitos jurídicos dentro da Igreja, e dizer que, para a sociedade, “não faz diferença” estar ou não excomungado é dizer uma obviedade, dado que, no nosso país, o Direito Canônico é completamente estranho ao Direito Civil.

– Igualmente, querer impôr à Igreja como Ela deve agir e como deve deixar de agir, dizendo quais pessoas deveriam ser excomungadas e quais não deveriam, é uma impropriedade e uma clara intromissão de estranhos em assuntos que não conhecem e que extrapolam a sua competência. A Igreja não é a casa da Mãe Joana onde todo mundo mete o bedelho e qualquer um pode dar opinião; rege-se Ela pelo Direito Canônico, e não pela [má] vontade de fulanos e sicranos que só se lembram da Igreja quando é para descer o sarrafo n’Ela. Citando um só exemplo de vários que poderiam ser trazidos, o senhor presidente da República: “Como cristão e como católico, lamento profundamente que um bispo da Igreja Católica tenha um comportamento conservador como este”. Sem comentários.

Excomunhão não significa “passaporte para o inferno”; de acordo com o Código de Direito Canônico, cân. 1331, “§1. Ao excomungado proíbe-se 1°- ter qualquer participação ministerial na celebração do sacrifício da Eucaristia ou em quaisquer outras cerimônias de culto; 2°- celebrar sacramentos ou sacramentais e receber os sacramentos; 3°- exercer quaisquer ofícios, ministérios ou encargos eclesiásticos ou praticar atos de regime; […] §2. Se a excomunhão tiver sido imposta ou declarada, o réu: 1° – se pretende agir contra a prescrição do § 1, n. 1, deve ser afastado, ou então deve ser suspensa a ação litúrgica, a não ser que grave causa o impeça; 2° – pratica invalidamente os atos de regime que de acordo com o § 1, n. 3, são ilícitos; 3° – fica proibido de gozar dos privilégios anteriormente concedidos; 4° – não pode conseguir validamente dignidade, ofício ou qualquer outro encargo na Igreja; 5° – não percebe os frutos de dignidade, ofício, encargo ou pensão que tenha na Igreja”. Ou seja, como foi já dito, trata-se de uma pena canônica cujos efeitos são muito bem especificados, e o “passaporte para o inferno” não consta entre eles.

– Tampouco a excomunhão é uma pena irreversível; havendo arrependimento, é possível ao penitente, por meio do Sacramento da Confissão, receber o perdão de Deus e o levantamento das penas canônicas (inclusive a excomunhão) nas quais porventura ele tenha incorrido.

– O Arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, não excomungou ninguém; a excomunhão automática para quem pratica aborto está tipificada no Código de Direito Canônico, e aplica-se indistintamente a qualquer católico, quer haja pronunciamento da autoridade competente (no caso, o Bispo), quer não. Segundo o Código, cân. 1398, “[q]uem provoca aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae”. Portanto, os que provocaram o aborto da menor, em Recife, incorreram na excomunhão automática que está prevista pelo Código de Direito Canônico (e que vale para toda a Igreja), e não numa suposta excomunhão que tenha sido aplicada pelo Arcebispo. Dom José apenas comunicou que os assassinos de crianças e seus cúmplices já haviam incorrido – desde a morte dos fetos – na excomunhão prevista pelo Direito Canônico.

– A criança de nove anos, obviamente, não está excomungada, por diversos motivos, bastando citar aqui o mais evidente: segundo o Código, cân. 1323, “[n]ão é passível de nenhuma pena, ao violar lei ou o preceito (…) quem ainda não completou dezesseis anos de idade”.

– A mera constatação de um fato (no caso, da excomunhão), feita pelo Arcebispo de Olinda e Recife, não significa, de modo algum, que a Igreja não se preocupe com a saúde da menina, nem que não dê a devida importância ao crime bárbaro do estupro, nem que deseje impôr um sofrimento à família, nem nada parecido. A existência de um crime bárbaro, por ninguém negado – o estupro – não faz com que seja moralmente lícito praticar um outro crime horrendo – o assassinato das duas crianças. Igualmente, dizer que é errado assassinar crianças não implica, sob nenhuma ótica minimamente racional, que se esteja relativizando a gravidade dos outros aspectos envolvidos (o estupro, a possibilidade de risco para a criança, etc).

– Para saber mais, aqui, no Deus lo Vult!, “Estão excomungados” (comentários), onde a discussão já desde ontem está correndo; igualmente, “O bufão da Globo” (comentários), sobre os infelizes comentários do Jabor sobre o assunto.

O bufão da Globo

Eu não ouvi – graças a Deus, e para a preservação da minha boa noite de sono – as besteiras que o Arnaldo Jabor falou ontem no Jornal da Globo. Só hoje fiquei sabendo que, para honra e glória de Nosso Senhor e desta terrinha de onde eu escrevo estas linhas, o escolhido de ontem para ser o objeto da fúria do comentarista da Globo foi Dom José Cardoso Sobrinho, Arcebispo fiel da Igreja de Deus, de quem eu tenho a imerecida graça de ser súdito indigno. Que grande honra! Ser atacado – em rede nacional – pelo Arnaldo Jabor no Jornal da Globo não é para qualquer um.

Lembro-me de que, há quase quatro anos, quando o Santo Padre João Paulo II estava doente, o comentarista mal-assombrado apareceu na madrugada para pedir a “eutanásia” do Papa. Lembro-me de que, no mês passado (registrei até aqui como um p.s.), esta excrescência pseudo-jornalística veio falar mal de Bento XVI. Se, ontem, foi Dom José o alvo da sanha doentia do Jabor, eu só posso dar graças a Deus porque o meu Arcebispo está em muito boa companhia – em verdadeira comunhão efetiva com o Santo Padre, até mesmo na lista negra dos inimigos da Igreja!

Não consigo ouvir o link da CBN, mas a fala do comentarista da Globo está transcrita aqui (na íntegra, eu suponho). Já começa o bufão evocando imagens (para ele) odiosas: “lá do fundo da idade média, este arcebispo (…)”. Deixando claro desde já – e prescindindo de qualquer argumento para isso, por meio do simples efeito mágico dos chavões que ele bovinamente repete – que Dom José é uma pessoa retrógrada e ultrapassada, e que ele – o Jabor – é o Arauto do Novo Século, o porta-voz da esperança contra o obscurantismo, o profeta que anuncia a derrocada da Idade das Trevas. Idade das Trevas! E quanto a este século no qual vivemos, onde se permitem que crianças sejam brutalmente assassinadas, e o crime horrendo, longe de ser planejado e executado às ocultas, é realizado à luz do dia, sob os holofotes da mídia, e saudado como um sinal de progresso pelos comentaristas da Rede Globo et caterva? Do que poderemos chamá-lo? A alcunha da qual se utiliza o Jabor como epígrafe do seu cretino comentário carrega em si uma completa inversão de valores que se transformou em senso comum graças à maciça propaganda anti-clerical (principalmente) das últimas décadas. “Do fundo da idade média”! Arnaldo Jabor não quer fazer uma análise razoável dos fatos, ele não tem capacidade para isso. Ele quer debochar, zombar, escarnecer: assume algumas posições a priori (coisas como “a Igreja é retrógrada”, “viva o aborto”, etc. – tudo isso não é dito expressamente, mas está subjacente ao discurso jaboriano), exime-se de apresentá-las ou justificá-las, e passa a tecer o seu discurso baseado nessas premissas (não tão) ocultas. Que credibilidade merece esse sujeito?

E começa o show de cretinices, entre mentiras e insinuações, entre meias-verdades e inverdades completas: “leis de Deus feitas por homens”, “queimaram Santa Joana d’Arc”, “João Paulo II era progressista”, “Bento XVI não ama os desvalidos” (complemento óbvio do pensamento dele, ao falar sobre João Paulo II), “os olhos frios de Bento XVI”, pedofilia entre padres, negação do holocausto… é um excelente compêndio dos chavões mais caducos e mais rasteiros que os inimigos da Igreja propagam por aí. Tem o mérito o Jabor de fazer a coletânea; ao que parece, contudo, ele não é capaz de identificar a natureza do excremento que manipula.

Termina o profeta fantasmagórico com uma das maiores pérolas da hipocrisia televisiva moderna que eu já tive o desprazer de encontrar:

Os excomungados de Olinda não devem ter medo. Deus está vendo e está com eles.

Certamente não está com esse inquisidor, o arcebispo José Cardoso Sobrinho.

Ah, claro. Uma pena que age no foro externo, como a excomunhão, não pode ser aplicada porque o “carrasco” é imediatamente acusado de ser um inquisidor surgido sabe-se lá de quais profundezas da Idade Média. Agora, o comentarista se arroga o direito de invadir o foro interno e julgar com quem o Todo-Poderoso está e com quem Ele não está, exprimindo a própria infalibilidade com a sentença que começa por “certamente”. “Certamente” Deus não está com o Arcebispo; assim falou o enviado dos Céus, o Porta-Voz do Altíssimo:  Jabor locuta, causa finita! Cometendo – em uma escala infinitamente maior – o mesmo pecado do qual acusa o Arcebispo de Olinda e Recife, o comediante da Globo revela – uma vez mais – que não passa de uma grande piada. Será possível que ainda haja gente acreditando que dá para levar este palhaço a sério?

Estão excomungados

Louvado seja Deus, porque nós temos um bispo“Arcebispo diz que quem participou do aborto da menina de 9 anos está excomungado”. Enquanto isso, há deputados que não estão gostando da atitude de Sua Excelência: Pedro Eurico (PSDB) classificou como “retrógrada, das trevas e da idade média” a postura do arcebispo de Olinda e Recife. Enquanto isso, os comentários da notícia que falam sobre a excomunhão estão repletos de ódio a Dom José Cardoso. Enquanto isso, eu recebo emails de senhoras ditas católicas – que propagam um respeito seletivo aos sacerdotes – chamando Sua Excelência de “padreco” e dizendo que é por causa de “bispos” (as aspas são dela) como ele que a Igreja perde Seus fiéis. Enquanto isso, o inferno urra e escarnece dos filhos de Deus; mas os católicos fiéis se regozijam, e os Céus estão em festa, porque um Sucessor dos Apóstolos digno da posição que ocupa é perseguido por ódio a Deus, e é atacado por causa de sua fidelidade a Nosso Senhor. “Combati o Bom Combate”, poderá dizer Dom José Cardoso!

Ontem à noite, o arcebispo tentou falar com o governador Eduardo Campos para pedir que nenhum hospital público do estado fizesse o aborto, mas não conseguiu falar com o governador por telefone. Conseguiu, apenas, falar com o presidente do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), Jones Figueiredo, e com o diretor do Imip, Antonio Figueira, para pedir a suspensão do aborto.
[Diário de Pernambuco – 04 de março de 2009]

Obrigado, Dom José, por Vossa Excelência ser para nós pastor atento, sentinela fiel!

Mais ignorância midiática

Acabei de ver esta reportagem do Estado de São Paulo: Lefebvriano diz que Concílio Vaticano II foi uma heresia. Subtítulo: Abrahamowicz, um dos quatro bispos aos quais o papa retirou a excomunhão, disse que Concílio ‘foi uma droga’.

O pe. Floriano Abrahamowicz, de quem eu nunca tinha ouvido falar até então, não é um dos quatro bispos cuja excomunhão foi retirada pelo Papa!! Aliás, nem poderia ser, porque ele é – como a própria reportagem diz – padre e não bispo!! É frustrante constatar a manifesta ignorância que a mídia demonstra no que toca às coisas da Igreja. O Marcio Antonio também denunciou imediatamente a gafe.

Quanto ao conteúdo da notícia, é patente que há “tradicionalistas” empenhados em boicotar a regularização da FSSPX. Rezemos pela unidade da Igreja.

Dois curtas sobre a FSSPX

– Uma reportagem no site da VEJA de hoje fala que o Vaticano exigiu de Dom Williamson a negação pública e inequívoca dos seus questionamentos sobre o holocausto judeu, afirmando ainda ser isto “um requisito básico para que o bispo volte a servir à Igreja, de acordo com um documento divulgado pelo Vaticano”. Sem fazer a mínima idéia de que espécie de documento poderia ser este, fui procurar na rede e o encontrei no Rorate Caeli.

Em dois pontos a reportagem da VEJA carece de precisões. Em primeiro e mais importante lugar, ela não deixa claro o que significa “volte a servir à Igreja”; não é (como eu pensei à primeira vista) uma condição para a retirada da excomunhão, e sim para que o bispo assuma funções episcopais. Portanto, a retirada da excomunhão (óbvio) permanece, independente de qualquer declaração ou ausência de declaração de Dom Williamson sobre o Holocausto. Em segundo lugar, o que a Nota da Secretaria de Estado do Vaticano parece colocar como condição para que o bispo assuma funções episcopais é uma coisa mais sutil do que simplesmente a exigência de uma retratação pública expressa e inequívoca (como eu também pensei à primeira vista): will also have to distance himself, in an absolutely unequivocal and public manner, from his positions regarding the Shoah, em inglês, ou dovrà anche prendere in modo assolutamente inequivocabile e pubblico le distanze dalle sue posizioni riguardanti la Shoah, no original italiano; literalmente, seria alguma coisa como “deverá [Dom Williamson] manter distância, de uma maneira pública e inequívoca, de suas posições sobre o Holocausto”.

[P.S.: no Jornal da Globo, neste exato momento (04/02, 00:05): “o Vaticano exigiu que o Bispo que negou o Holocausto se retrate, sob pena de continuar excomungado” – mentira. E o Jabor falando besteira sobre o Santo Padre… uma verdadeira anta. “- ‘Ah – diz o porta voz do Vaticano – mas o Papa não sabia que o cara tinha dito isso!’ Mas como não? O Papa não é infalível?” Seguido de um risinho sarcástico de gente estúpida que não sabe o que está dizendo. A cretinice não tem limites!]

Outrossim, como já cansei de dizer que nem Dom Williamson negou o Holocausto e nem opiniões particulares sobre o Holocausto ou a sua inexistência têm qualquer ligação com o levantamento das excomunhões da FSSPX, não vou voltar a insistir no assunto porque nem eu mesmo agüento mais.

Uma carta do pe. Juan Carlos foi publicada no Fratres in Unum, conclamando os bispos da FSSPX para que não aceitem o levantamento das excomunhões. A argumentação do padre está corretíssima: pedir “el retiro del Decreto de declaración de la excomunión” implica reconocer “la validez de la censura”. Como já foi comentado em diversos lugares (e contrariamente ao que alguns insistem em afirmar), um decreto que retire uma excomunhão necessariamente pressupõe a existência da excomunhão que está sendo retirada. Portanto, longe de declarar a “nulidade” das excomunhões de 1988, o decreto tornado público no sábado 24 de janeiro corrobora-as; e até mesmo um padre da Fraternidade o reconhece.

Importa insistir, por uma absoluta necessidade de se ater aos fatos tais e quais eles se apresentam: do decreto da Congregação para os Bispos do dia 21 de janeiro, infere-se que havia de fato uma excomunhão (ao contrário do que dizem alguns rad-trads malucos), e ela de fato foi retirada (ao contrário do que a mídia modernista pretende insinuar com seus ataques a Dom Williamson). Rezemos pela FSSPX.

“Dr. Willianson et caterva” – Carlos Ramalhete

[Na lista de emails do yahoo “Tradição Católica e Contra-Revolução”, da qual participo já há algum tempo, o professor Carlos Ramalhete postou nos últimos dias dois emails tecendo comentários muitíssimo pertinentes sobre a questão da retirada da excomunhão da FSSPX. Com a autorização do mesmo, publico-os aqui na íntegra, cum gaudium magnum, e recomendando enfaticamente a leitura, a despeito do tamanho de ambos. As duas mensagens originais estão armazenadas no baú da lista (disponível para membros), aqui e aqui. A divulgação é livre na íntegra com menção do autor.]

Mensagem 1:
(por prof. Carlos Ramalhete)

Pax Christi!

Andaram me pedindo para dar um pitaco nesta questão complicada (será?) da retirada da excomunhão do pessoal de D. Lefebvre. A pedidos, lá vai.

Na minha humilde opinião, o Santo Padre mandou muito bem, e agora compete ao Dr. Fellay e seus colegas conseguir voltar à Igreja (digo Dr., por não ter ele jurisdição e por estar ele suspenso a divinis, pecando gravemente se celebrar ou ministrar os Sacramentos. Espero ansioso poder chamá-lo de Dom e poder pedir-lhe a bênção).

Quanto eu digo voltar à Igreja falo em um sentido muito lato. Não se trata de questões legais. Questões legais o Papa resolve com uma canetada, como retirou com uma canetada a excomunhão dos quatro. Quatro que, aliás, eram cinco: o que era um núcleo cismático em Campos hoje em dia, graças a Deus, está dentro da Igreja.

O que é estar dentro da Igreja?

Não é ***só*** estar em uma situação jurídica certinha. D. Casaldáliga está em uma situação jurídica impecável. O Padre Fulano, que usa um cibório de capim prensado em volta de um vaso de barro, idem. Irmã Sicrana, que defende aberrações do arco da velha e acha que o aborto é uma opção da mãe até os dezoito anos de nascido, tbm está.

Mas tampouco é ***só*** ter a Fé Católica. Menos ainda ter os acidentes da Fé e não ter a essência.

Ser católico na segunda metade do século XX – e, por extensão, no começo do XXI – é como ser filho de pai cachaceiro. O Quarto Mandamento dói, dói de verdade. É fácil cumprir o quarto mandamento quando não há sombra de dúvidas de que quando rezamos pelo nossa mãe e a chamamos de serva devota, é isso mesmo. Mas quando o pai é cachaceiro, quando a mãe é arreligiosa, ***quando o padre é discípulo de Marx ou de algum guru da auto-ajuda***, o buraco é mais embaixo.

Já dizia Madre Teresa: Amor só é verdadeiro quando dói. Dói ir à Missa e ficar procurando a Missa, o Sacrifício Incruento, debaixo da mistura bizarra de auto-ajuda com culto protestante que o disfarça. Dói ver coisas tão medonhas acontecendo aqui e ali que Deus chega a mandar um terremoto.

Mas pai é pai, mãe é mãe, a Igreja é mãe, o Papa é pai, e o Quarto Mandamento sempre foi o mais difícil de cumprir.

Quando eu volto pra casa de uma Missa na Basílica de Aparecida em que meu filho de doze anos ficou rodando que nem um doido procurando um padre para receber o Santíssimo, e tinha dezenas deles celebrando jubileu de ordenação, concelebrando a Missa, e o Santíssimo só era distribuído por leigos, e ele ficou sem comungar por causa disso;

Quando eu viajo horas atrás de uma Missa em que – me disseram – não há abusos graves, e antes mesmo do padre entrar vem um sujeito dançando uma dancinha estranha e pedindo “palmas pra jesus” (com minúsculo, pq pelo jeito é o nome do show dele);

Quando eu me ajoelho e beijo a mão do padre, e digo “padre, peço perdão por não o ter reconhecido, com o senhor disfarçado de leigo desta maneira”…

É a hora em que Deus nos coloca como colocou aos filhos de Noé. Não quero ser Canaã (Gn. IX,18ss, e chega de dar referências. Quem conhece, conhece).

É isso que o respeito ao Quarto Mandamento exige, e é isso que parece faltar, na sua soberba, a muitos seguidores de D. Lefebvre.

A Igreja é nossa mãe, nossa mãe amantíssima. Se, como houve com Noé, algo há de errado na forma como ela se apresenta, o mínimo que se pode fazer é ter a decência de trabalhar em prol dela, ***dentro dela***. Fugir para uma capelinha onde se finge estar em 1950 e onde o padre ou o leigo se coloca como juiz do Sumo Pontífice – coisa que nenhum padre ou leigo sonharia em fazer em 1950 – é uma tentação tão medonha, é um igualitarismo tão radicalmente modernista, como qualquer delírio de um “construtor de um mundo novo” nas CEBs.

Quis ut Deus? E quem em sã consciência pode se arvorar em juiz da Igreja, da catolicidade do Papa, valha-me Deus?!

A misericórdia do Santo Padre – “Dominus conservet eum, et vivivicet eum, et beatum faciat eum in terra, et non tradat eum in animam inimicorum eius”, como rezo todos os dias nas laudes e vésperas – deu aos quatro filhos de Canaã a chance de agir como seus irmãos abençoados e voltar para a Igreja. Ótimo. Serão bem vindos, como foram bem vindos os Padres de Campos ( e confesso que digo “Benedicto”, mas do fundo do meu coração é “Ferdinando” que me vêm e por quem peço a Deus que “stet et pascat in fortitudine ea et in sublimitate nomini eius”).

Temos, senhores, quatro décadas de lixo a limpar. Quatro décadas de distorções e negações frontais do ensino perene da Igreja, feitas em nome de um “Espírito do concílio”, aproveitando cada ambiguidade e cada má leitura possível plantada pelo Inimigo, agindo no desespero de quem vê chegar ao fim os cem anos que lhe foram dados, pela cronologia do sonho de Leão XIII. Quatro décadas de violões e baterias levando a feiura demoníaca a conspurcar os acidentes do mais belo acontecimento pra cá do Céu. Quatro décadas de catequese negada, em que o protestantismo mitigado dos carismáticos é o que há de mais “religioso” em um panorama de devastação. Quatro décadas de destruição. Quatro décadas de negação da Verdade, de desobediência frontal à lei da Igreja e à Lei de Deus, sob a ridícula justificativa de que “o Concílio” (que não seria o de Trento, nem o Vaticano I…) “mudou tudo”.

Mudou, senhores, porcariíssima nenhuma. Está errado quem se apega a uma suposta refundação da Igreja para pregar barbaridades comunistas, e está errado quem se apega à mesmíssima e supositíssima refundação para se arvorar em juiz da catolicidade do Papa.

Espero em Deus e na Santíssima Virgem que os quatro bispos ora suspensos a divinis peguem suas vassouras e ajudem, deixando na porta seus egos, deixando na porta a maldita e nefanda tentação da soberba que os fez tantas vezes arvorar-se – tal como ocorre com seus seguidores – juízes do Sumo Pontífice.

Fala asneiras o Dr. Willianson? Certamente. Nem mais, nem menos que D. Casaldáliga, e ambos movidos pela mesma tentação demoníaca de usar um concílio como desculpa para a desobediência e o culto a si mesmo, a mais grave forma de idolatria.

Tanto um quanto o outro, contudo, são chamados, como eu, leigo, sou chamado, mas em grau infinitamente superior pela ordenação que receberam – aliás, cabe lembrar que a única definição doutrinal do CVII é esta: a ordenação episcopal é essencialmente diferente da presbiteral – a defender a Verdade e a estar na Igreja, atuantes, como missionários da Verdade. Missionários da Verdade, notem bem. Não juízes do Concílio – dado não haver nenhuma diferença entre o valor do juizo de um e de outro sobre ele – nem, muito menos, do Papa, e por aí vai.

O Santo Padre – Dominus conservet eum, et vivivicet eum, et beatum faciat eum in terra, et non tradat eum in animam inimicorum eius – está encarando uma briga monstruosa. É ele, com a ajuda de Deus, contra a Revolução, contra o Inimigo, contra a imbecilidade que quer acreditar na armadilha demoníaca de duas Igrejas, uma pré-conciliar e outra pós-conciliar.

O que compete a cada membro da Igreja Militante, de um pobre leigo idiota como eu a um Bispo, um Cardeal, um sujeito ordenado padre ou bispo (repetindo:diferença dada pelo CVII) e suspenso a divinis, um padre, uma freira, quem mais for, é colocar-se de joelhos diante do Santo Padre e dizer “aqui estou. Que devo fazer?”. Fazer diferentemente é fazer como os vetero-católicos, que se separaram da igreja por acharem os jesuítas moralmente laxos e que hoje tentam ordenar mulheres, quiçá sapos ou pedras.

Espero em Deus que a armadilha da soberba não apanhe em seus laços aos quatro bispos ora suspensos – que fariam enorme bem se viessem a público proclamar que, em virtude de sua suspensão, não ministrarão os Sacramentos até a regularização de sua situação – e que eles, ao invés de ficar atrás das linhas, atirando no comandante, coloquem-se na linha de frente do campo de batalha.

Serão bem vindos.

Que Deus os guarde, e que nós os tenhamos sempre em nossas orações, bem como aos cismáticos russos e anglicanos, também caminhando de volta à Casa do Pai.

No dia de Nossa Senhora das Candeias – que ofereceu oferta de purificação sem precisar ser purificada por ser já totalmente pura -, segunda-feira da 4a semana depois da Epifania no ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2009,

seu irmão em Cristo e criado, sempre necessitado de suas orações,

Prof. Carlos Ramalhete

[Na troca de mensagens subseqüente, foram levantados dois questionamentos; que o Decreto utilizava o título “Dom Williamson” para se referir ao bispo da FSSPX, e que a existência da suspensão a divinis era controversa.]

Mensagem 2:
(por prof. Carlos Ramalhete)

Pax Christi!

>O sr. não dá o título de “Dom” a Fellay porém, no próprio decreto está
>escrito:
>
>”Con lettera del 15 dicembre 2008 indirizzata a Sua Em.za il Sig. Cardinale
>Dario Castrillôn Hoyos, Presidente della Pontificia Commissione Ecclesia
>Dei, *Mons*. Bernard Fellay, anche a nome degli altri tre Vescovi consacrati
>il giorno 30 giugno 1988…”
>
>Não sei italiano, mas aquele “Mons.” não deve ser “Dr.”…

Até pro Dalai Lama, que é escravo de milhares de demônios, foi usado o título de “Santidade”. Lamento informar, mas não sou nem nunca serei diplomata. Na carta ao novo Patriarca dos cismáticos russos tbm foi usado o termo “Sua Santidade” para referir-se a ele.

Aliás, a situação dos bispos da SSPX – por quem torço e que espero ter plenamente na Igreja em breve – tem pontos em comum com a dos orientais, cuja excomunhão também foi retirada como modo de facilitar o diálogo e uma possível volta à Igreja.

A diferença maior é que, no caso dos cismáticos orientais, tal como no caso de Campos, trata-se de uma Igreja Particular inteira que sai da perfeita comunhão. O patriarca Cirilo tem alguma jurisdição, embora ilegítima. No caso da SSPX, temos quatro pessoas que receberam ordenações episcopais ilícitas, que são seguidas por pessoas que eles mesmos ordenaram ilicitamente ao presbiterato, seguindo da melhor maneira que vêem e na melhor das intenções a santa Tradição da Igreja Latina. Jurisdição zero, só obediência voluntária, como a de meninos ao chefe de um clubinho.

Espero que isto seja sanado em breve. Os problemas, contudo, persistem. O primeiro deles é a soberba; por mais que se trate de um problema subjetivo, é este o maior obstáculo à plena regularização.

O segundo, este muito mais simples de resolver, é a questão jurídica. As ordenações dos sacerdotes e bispos da SSPX (e todo bispo é sacerdote) foi feita ilicitamente, causando sua suspensão a divinis. Do mesmo modo, foi feita fora de uma estrutura canônica regular, o que faz deles acéfalos e vagos, respectivamente. Isto é facílimo de resolver: basta dar à SSPX uma estrutura, talvez mesmo uma semelhante à dada aos Padres de Campos, mas abrangendo o mundo todo. Nada contra, muito pelo contrário. Hoje isso é ainda mais fácil devido ao Motu Próprio, que faz com que a Missa de sempre, o breviário, etc., sejam oficialmente uso oficial da Igreja. Se o padre da paróquia da esquina resolver rezar pelo Breviário ao invés de pela Liturgia das Horas, está hoje em seu pleno direito e cumprindo sua obrigação (recomendo, aliás. O breviário é acidentalmente muitíssimo superior à Liturgia das Horas; é a diferença entre algo erigido com o auxílio do Espírito Santo por séculos e o trabalho de um comitê…).

Se a SSPX voltar plenamente, inserida na estrutura canônica e hierárquica da Igreja, é de se esperar que cada vez mais padres e leigos passem a buscar cultuar a Deus na Tradição da Igreja, e não mais na imitação mal-feita e atrasada das modas do século propagada pelos hippies velhos que falam em nome da CNBB. Mas para isso é preciso que a SSPX abandone sua posição insustentável de pseudo-juiz do Papa e da Igreja, e que seus membros e fiéis percebam que católico é católico quando se submete ao Romano Pontífice. Não há diferença essencial entre alguém que desobedece frontalmente ao Papa para usar ministretes nas missas dominicais pq acha fofinho e alguém que desobedece para celebrar a Missa de sempre e fingir que dá absolvição sacramental aos incautos. Seria mesmo possível dizer ser pior a situação deste, que sabe e erra, do que a daquele, que é ignorante. Afinal, a absolvição sacramental dada por um padre da SSPX vale exatamente o mesmo que uma “absolvição coletiva” dada por um padre TL: ou o penitente está à beira da morte, ou não vale mais que uma que eu, leigo, dê pela internet – nada.

Quando a Santa Sé recebeu de volta os Padres de Campos, foram retiradas a excomunhão *e todas as outras censuras* ( http://www.adapostolica.org/modules/wfsection/article.php?articleid=293 ). No caso presente da SSPX, foi retirada a excomunhão, ponto. Isto significa que se os padres e bispos da SSPX procurarem algum padre que tenha – ao contrário deles – o poder de dar a absolvição e se confessarem, podem comungar. Ótimo, é um bom começo.

O que não é um bom começo é a estranhíssima visão individualista e modernista que parece ainda animar grande parcela dos membros e fiéis da SSPX, que se referem ao Papa como um igual, como – na melhor das hipóteses – primus inter pares.

Na minha modesta opinião, esta soberba é fruto da horrenda derrocada da Europa e da América do Norte ao pensamento modernista. Enquanto aqui no Brasil os Padres de Campos obedeciam – ainda que no erro – ao Bispo (D. Castro Mayer, de quem aliás se diz ter tentado voltar à Igreja antes de sua morte), a SSPX age como uma seita protestante, espalhando-se e atacando a Igreja abertamente. O raciocínio deles é tipicamente modernista, racionalizando a insubmissão à santa hierarquia, fazendo malabarismos com o CIC como se a Igreja fosse uma democracia ocidental em que um juiz pode levantar-se contra o monarca.

Isto leva, na melhor das hipoteses, a um sedevacantismo material. Se o Papa é tratado não como pai, mas como “ex-marido” na vara de família (“vamos arrancar dele a guarda das crianças e uma pensão, e ele vai ver o que é bom pra tosse”), para eles Papa ele não é. Alguns membros da SSPX perceberam que só faria sentido lógico aderir formalmente ao sedevacantismo, e o fizeram (www.sspv.net). É pelo menos mais honesto, ainda que leve ao Inferno do mesmo jeito.

Os outros, agora, estão sendo recebidos no portão pelo pai, tal como o filho pródigo. Que seja morto um boi gordo, que recebam o anel e o manto!

De nada vale fazer pouco disto, de nada vale arrotar grandezas e se negar à necessária humildade. Espero em Deus que em breve, que em muito breve, eu possa dizer “Dom Ricardo” e não Dr. Willianson. Mas chamá-lo de “Dom” (“Dominus”, Senhor) agora é dizer que um anel feito de palha da pocilga é o mesmo que o anel de ouro do pai que recebe o filho pródigo. É fazer pouco da caridade, da família, da hierarquia e da Igreja.

Vai ser necessário no mínimo fazer a sanatio in radici de todos os matrimônios nulos que a SSPX tentou celebrar, para não falar dos medonhos casos em que a SPPX arrogou-se o direito papal de decretar nulidades matrimoniais e o direito dos ordinários de reduzir diáconos ao estado laical, etc. Vai ser necessário levar todos os que se confessaram aos padres da SSPX de volta ao confessionário. Vai ser necessário sair da brincadeira de casinha na capelinha em que só se obedece ao próprio umbigo. Vai ser necessário, em outras palavras, abandonar o protestantismo e o modernismo que hoje dominam a SSPX para tê-la de volta, dentro da Igreja, atuando e lutando contra as barbaridades que hoje a assolam.

Se os seus líderes tiverem a humildade de reconhecer que fazer malabarismos canônicos ignorando a vontade expressa do Sumo Pontífice tem exatamente o mesmo valor que espernear no chão gritando que vai prender a respiração até ficar roxo se não ganhar o brinquedo, se eles se dispuserem a entrar na briga para valer, vai ser maravilhoso. Meninos mimados brincando de casinha não ajudam em nada, só atrapalham quando a guerra está comendo solta. Que venham, que se submetam, que peguem suas armas e entrem nas trincheiras reais.

Vamos tê-los propagando as belezas litúrgicas e devocionais da Tradição, levando aos poucos os outros padres a abandonar os delírios e invencionices com que hoje fazem frequentemente da liturgia um circo dos horrores. Vamos tê-los nas Conferências episcopais, falando e sendo ouvidos. Vamos tê-los no rádio, na TV, pregando com autoridade.

E isso abrirá as portas para a volta dos cismáticos orientais, tal como a volta dos Padres de Campos deu aos anglicanos tradicionalistas a oportunidade de pensar em voltar. É provável que em breve tenhamos um grupo enorme de ex-anglicanos voltando para a Igreja, com seus pseudo-sacerdotes recebendo as ordens sacras, com suas capelas sendo consagradas, com o que era uma farsa tornando-se verdade. O mesmo pode acontecer com patriarcados orientais inteiros, se a SSPX voltar.

A Barca está voltando, como no sonho de S. João Bosco, a seu lugar entre as colunas. É isto o necessário para trazer de volta todos os cismáticos que procuram manter a Fé. Uma etapa fundamental é a volta da SSPX, por que rezo todos os dias, mas para que isso aconteça, é necessário que eles percebam que são o filho pródigo, não um juiz do pai.

É preciso humildade.

[]s,

seu irmão em Cristo,

Carlos